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<BODY bgColor=#ffffff background=""><FONT face=Arial size=2>
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<HR>
</DIV>
<DIV align=center><STRONG><FONT size=4><EM>boletín solidario de información - 
edición internacional</EM><BR><FONT color=#800000 size=5><U>Correspondencia de 
Prensa<BR></U>Agenda Radical - Colectivo Militante</FONT><BR><U>16 de mayo 
2009</U><BR>suscripciones y redacción: </FONT></STRONG><A 
href="mailto:germain5@chasque.net"><STRONG><FONT 
size=4>germain5@chasque.net</FONT></STRONG></A><BR></DIV>
<DIV align=justify>
<HR>
</DIV>
<DIV align=justify>&nbsp;</DIV>
<DIV align=justify><STRONG><FONT size=3>Brasil</FONT></STRONG></FONT></DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial><STRONG></STRONG></FONT>&nbsp;</DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial><STRONG>Entrevista a Ricardo 
Antunes</STRONG></FONT></DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial><STRONG></STRONG></FONT>&nbsp;</DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial size=2><STRONG><FONT size=3>Profundidade da 
crise coloca desafios cruciais para a classe 
trabalhadora</FONT>&nbsp;&nbsp;&nbsp; <BR></STRONG></DIV></FONT>
<DIV align=justify><FONT face=Arial size=2><STRONG></STRONG></FONT>&nbsp;</DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial size=2><STRONG></STRONG></FONT>&nbsp;</DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial size=2><STRONG>Valéria Nader e Gabriel 
Brito&nbsp;&nbsp;&nbsp; </STRONG></FONT></DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial size=2><STRONG>Correio da 
Cidadania</STRONG></FONT></DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial size=2><A 
href="http://www.correiocidadania.com.br/"><STRONG>http://www.correiocidadania.com.br/</STRONG></A></FONT></DIV><FONT 
face=Arial size=2>
<DIV align=justify><BR><BR>Chegamos quase à metade do ano e já inundam a grande 
imprensa notícias dando conta de uma incipiente saída da crise, tendo em vista a 
melhora da balança comercial, uma discreta retomada no comércio varejista e na 
produção industrial e, por que não dizer, a retomada dos índices Bovespa e 
assemelhados. Ao mesmo tempo, prognósticos de desemprego vêm se concretizando a 
passos largos, e já podem ser vistas revoltas em diversos países, não somente 
periféricos, mas também nos centrais, com trabalhadores se manifestando e 
empresas fechando, sem que as sonhadas respostas para a superação da crise 
apareçam. <BR>&nbsp;<BR>Diante de tal conjuntura, o Correio da Cidadania 
entrevistou o sociólogo Ricardo Antunes, para quem o quadro que se avizinha é 
devastador, uma vez que não há discussões em torno de uma mudança profunda de 
nosso modo de vida, somente medidas que mais interessam ao capital que ao 
trabalhador - o que, em algum momento, chamará novamente pela intervenção do 
Estado.&nbsp;Quanto às estimativas de desemprego, Antunes diz que será superada 
a expectativa de 50 milhões de postos de trabalho perdidos feita pela OIT, até 
porque o órgão se baseia somente em dados oficiais. Para ele, o debate central 
passa pela redução da jornada de trabalho, sem perda de direitos, que resultaria 
na inserção de um enorme contingente de excluídos, desde que dispensados os 
imperativos do mundo do capital. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: 
Pensando na economia primeiramente, perto de já completarmos o primeiro semestre 
de um ano que se anunciou sombrio – a partir de uma queda de 3,6% do PIB no 
último trimestre de 2008 relativamente ao 3º, com queda de quase 10% dos 
investimentos e de 7,4 % na indústria -, começam a ser ouvidas vozes de 
analistas e estudiosos prevendo um início, ainda que incipiente, de saída da 
crise, especialmente no Brasil. Nesse sentido, essa melhora muito discreta da 
balança comercial, do comércio varejista e da produção industrial no primeiro 
trimestre tem algum significado em sua visão? <BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ricardo 
Antunes: Não vou fazer uma análise detalhada dos movimentos da economia, pois 
não sou economista e, portanto, farei uma consideração de âmbito mais geral. 
Penso que, dada a amplitude da crise estrutural que vivemos e o fato de nossa 
economia ser muito interligada, em função da mundialização do capital, esses 
condicionantes anteriores não permitem uma análise muito otimista do mercado 
brasileiro. <BR>&nbsp;<BR>Claro que medidas como a redução do IPI de vários 
setores, incentivo à produção aqui e ali, à indústria automobilística, à 
construção civil etc. têm um impacto imediato no sentido de se contrapor a uma 
tendência de crise mais acentuada. No entanto, a questão que se coloca é o 
alcance de tais medidas, uma vez que vemos o quadro norte-americano, europeu e 
asiático (Japão) em situação muito grave. Isso me leva à seguinte consideração: 
o epicentro da crise pode se alterar, mas estamos vivendo um longo período 
depressivo, de decréscimo das taxas de lucro. As opiniões "otimistas" me parecem 
expressão de uma expectativa não respaldada numa análise global mais forte, 
visto que imaginam isolar alguns países e crer que possam caminhar à margem da 
crise, que é mais estrutural e global. <BR>&nbsp;<BR>É natural que os países 
tenham resultados diferenciados, com maior ou menor nível de desemprego. Os 
dados do trabalho mostram isso. Mas, mesmo quando há uma diminuição no ritmo do 
desemprego, na seqüência se reconfigura um quadro no mínimo problemático. E a 
equação da crise, da forma como vem sendo feita nos países centrais – de 
"socialização das perdas", uma expressão que já nos marcou na 1ª. República –, é 
a de repassar os prejuízos das empresas e do mercado ao Estado e dele para o 
conjunto da população, que deverá pagar uma conta pela qual não foi responsável. 
Isso traz um endividamento público de proporções colossais e alguém terá de 
pagar essa conta em algum momento. <BR>&nbsp;<BR>Sendo assim, não posso 
corroborar essas análises otimistas. Elas se assemelham àquelas que, há pouco 
mais de seis meses atrás, diziam que estaríamos imunes à crise, idéia falaciosa 
e, no limite, equivocada. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>CC: O Brasil realmente começou o 
ano com números alarmantes de crescimento do desemprego. No entanto, nos últimos 
meses, houve uma mudança de movimento e, apesar de a taxa de desemprego ser 
ainda crescente, diminuiu o ritmo de perda de postos de trabalho. Pela sua 
análise, podemos inferir que essa queda de ritmo não chega a ser significativa 
de alguma virada?</STRONG> <BR>&nbsp;<BR>RA: Não creio em virada, mas isso 
responde a alguns movimentos feitos. O governo, por exemplo, reduziu 
significativamente o IPI para a indústria automobilística, para a construção 
civil e outros setores, o que tem incidência nos níveis de emprego, pois o 
Brasil possui um mercado consumidor interno forte, que em geral sempre foi 
menosprezado, pelo fato de o pólo central de nossa economia ser prioritariamente 
voltado ao mercado externo. <BR>&nbsp;<BR>À medida que esse mercado externo dá 
sinais de retração e há incentivos ao mercado interno, pela redução de 
alíquotas, há uma aceleração da possibilidade de consumo por parte de parcelas 
da população que costumam ficar à margem do mercado consumidor, criando um 
bolsão de crescimento, mas que leva à seguinte questão: até quando essa política 
de isenção de impostos compensa o não-recolhimento do conjunto necessário de 
impostos, imprescindíveis para o custeamento de outras áreas, como saúde, 
previdência e educação? <BR>&nbsp;<BR>É evidente que, diminuindo o imposto e 
aumentando momentaneamente o consumo, será possível dizer, por meio das contas, 
se vale a pena ou não a redução dos impostos em relação ao crescimento da 
produção. Mas, a médio e longo prazos, esta não é uma alternativa duradoura e 
efetiva à crise, até porque ela tem outros elementos estruturais mais 
significativos, dados pelos seus condicionantes externos. <BR>&nbsp;<BR>A meu 
ver, o problema – ainda que o Brasil não esteja entre os países mais atingidos – 
é imaginar que já saímos do pior sem observar o cenário internacional e como a 
crise continua forte nos países que estão no coração do sistema. Nós, em 
verdade, estamos no centro de uma crise estrutural do sistema do capital, que 
inicialmente devastou o chamado 3º. Mundo, depois arrasou o Leste Europeu e 
agora está no coração dos países capitalistas centrais. E essa crise, além de 
estar operando o que venho chamando como uma nova era de demolição do trabalho, 
é profundamente destrutiva em relação à natureza, colocando em risco o próprio 
futuro da humanidade. Neste sentido, ela é estrutural e devastadora. 
<BR>&nbsp;<BR><STRONG>CC: Nesse sentido, PAC, novo pacote habitacional, 
incentivo ao setor automobilístico, as medidas mais importantes do governo pra 
combater a crise, tão ufanisticamente tratadas pelos seus interlocutores, têm, 
efetivamente, um impacto limitado na economia e no mercado de trabalho.</STRONG> 
<BR>&nbsp;<BR>RA: Sim, um efeito conjuntural, na medida em que reduzem as taxas 
de desemprego, que seriam ainda maiores. Mas as informações dos EUA, da Europa e 
Japão, mostrando taxas mais altas de desemprego, empurram o cenário para um 
quadro ainda mais crítico. <BR>&nbsp;<BR>As medidas podem diminuir um pouco o 
nível de desocupação, mas agora vimos, nos dados mais recentes do IBGE, uma alta 
taxa de desemprego nas principais regiões metropolitanas, inclusive incidindo 
sobre jovens com relativa qualificação. Isso parece mostrar o caráter momentâneo 
e conjuntural das medidas do governo, até porque todo o modelo brasileiro, 
inclusive no governo Lula, é voltado à dependência do mercado externo, através 
das commodities e da exportação. <BR>&nbsp;<BR>Quando há uma retração forte no 
mercado externo, afeta nossa produção. A redução de IPI incide, portanto, 
positivamente no mercado interno, mas não nas commodities e no mercado externo. 
<BR>&nbsp;<BR><STRONG>CC: E quanto às medidas voltadas ao mercado de trabalho 
mais especificamente, qual é a sua opinião quanto à postura do governo frente ao 
discurso recorrente do patronato na defesa da flexibilização dos direitos 
trabalhistas para enfrentar a crise? Não deveria e poderia este mesmo governo, 
em direção oposta à flexibilização, exigir mais contrapartidas das empresas 
beneficiadas com ajuda pública?</STRONG> <BR>&nbsp;<BR>RA: Claro. No primeiro 
momento, a redução do IPI já não foi sequer condicionada à não-demissão, tanto 
que algumas empresas obtiveram o benefício e demitiram, o que mostra a timidez 
das medidas, que atendem muito mais aos interesses do capital do que aos do 
trabalho. A redução momentânea do IPI deveria, no mínimo, ser rigorosamente 
condicionada à manutenção do emprego e à contratação de novos setores. E há 
outro ponto fundamental, que é a necessidade de tributar – e não desonerar – os 
capitais. <BR>&nbsp;<BR>Outra questão é que o governo não atendeu a nenhuma 
bandeira dos trabalhadores e do sindicalismo de classe, como, por exemplo, 
reduzir a jornada sem diminuir salários e direitos. O governo é tímido com 
relação a tais medidas, pois sabe que elas não interessam ao grande capital. 
<BR>&nbsp;<BR>Como se trata de um governo de conciliação, que garante os 
interesses do grande capital, do capital financeiro, do grande capital 
produtivo, os maiores beneficiários da política econômica do governo Lula, uma 
medida como essa – a redução efetiva da jornada de trabalho sem perdas de 
direitos e de salário - poderia ter efeitos positivos, pois aumentaria o 
ingresso da força de trabalho sobrante no mercado de trabalho, dado nosso alto 
nível de desemprego. No entanto, trata-se de uma providência que, em alguma 
medida, fere os interesses do grande capital; por isso ela sequer é seriamente 
cogitada pelo governo. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>CC: O professor de Economia da 
Unicamp, e atual diretor do IPEA, Marcio Pochmann defendeu uma jornada semanal 
de trabalho de 12 horas em um curso sobre a crise mundial que está sendo 
promovido, entre outros, pelo jornal Brasil de Fato – apesar do reconhecimento 
de que não há hoje força política para se alcançar esta bandeira. O que você 
pensa disso?</STRONG> <BR>&nbsp;<BR>RA: Acho que ele tem razão. Com a redução de 
jornada e as pessoas trabalhando algumas horas, em alguns dias da semana, a 
produção voltada ao consumo da humanidade estaria garantida. Mas somos uma 
sociedade concebida desde seu nascedouro como uma sociedade do trabalho, em que 
o papel da classe trabalhadora é criar mais valor apropriado pelo mercado e 
grandes empresas capitalistas. Essas, se pudessem, prolongariam a jornada e/ou 
aumentariam, como fazem, a intensidade e a exploração do trabalho através do 
conhecimento técnico-científico-informacional dentro da produção - de modo que, 
intensificando o tempo de trabalho e aumentando a maquinaria técnico-científica, 
o capital se remuneraria muito mais, obtendo muito mais lucro e mais-valia. 
<BR>&nbsp;<BR>Mas Marx já nos alertava de que uma proposta significativa para 
redução de jornada não é do interesse do grande capital. Há cerca de uma década, 
na França, com muito mais tradição de lutas operárias e conflito social, houve 
uma proposta de uma redução muito moderada da jornada e, ao longo de meia década 
depois, o capital francês impediu que esse processo resultasse em algo positivo 
para a classe trabalhadora. Assim, revela-se um pouco da prática do 
empresariado. Portanto, reduzir substantivamente a jornada de trabalho é um 
embate profundo entre as forças sociais do trabalho e os interesses dominantes 
do capital em escala global. Reduzir a jornada de trabalho, tendo como base o 
tempo disponível da população trabalhadora, de modo que se preservasse o consumo 
necessário da humanidade, é fundamental, mas fere os interesses do sistema de 
capital, fundados numa sociedade (da exploração) do trabalho. <BR>&nbsp;<BR>O 
que quero dizer é que reduzir a jornada sem reduzir direitos é um embate 
político fundamental do trabalho contra o capital, desde os primórdios da 
Revolução Industrial. Com o padrão técnico-científico que temos, se os 
interesses dominantes não fossem os do capital, se os imperativos não fossem os 
do capital, poderíamos ter uma jornada de trabalho muito menor, com menos tempo 
e dias de trabalho, e tendo a população trabalhadora vivendo com mais dignidade 
e aumentando seu tempo de vida fora do trabalho. Mas para tanto precisamos 
caminhar para outro modo de vida e de produção, para além do capital. Por isso 
se trata, antes de mais nada, de uma luta social e política de grande 
envergadura. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>CC: Pensando em termos mundiais, acredita que 
vá se confirmar a projeção da OIT de aumento de 50 milhões no número de 
desempregados em 2009?</STRONG> <BR>&nbsp;<BR>RA: Será muito mais do que isso. A 
OIT opera com dados oficiais. É difícil fazer a captação de dados não-oficiais. 
Por exemplo: se a China perdeu em poucos meses 26 milhões de trabalhadores 
urbanos que migraram do campo em busca de trabalho nas cidades, só 
contabilizando o desemprego real da China, da Índia, do resto da Ásia, África, 
América Latina, e mesmos os países centrais, teremos taxas de desemprego maiores 
do que as previstas pela OIT, que já são explosivas, pois 50 milhões de seres 
humanos desempregados só em 2009 já configuram uma taxa explosiva. 
<BR>&nbsp;<BR>Mas, com os elementos que colhemos dos EUA, Europa e Japão, se 
incluídos nesse cenário avassalador os demais continentes, teremos um desemprego 
real ainda maior. <BR>&nbsp;<BR>Sabemos que o desemprego oculto freqüentemente 
não é apreendido pelos dados oficiais, aquele sujeito que trabalha só algumas 
horas por semana não consta como desempregado, assim como o sujeito que já não 
procura emprego há mais tempo também deixa de ser contabilizado. 
<BR>&nbsp;<BR>Estive duas vezes em Portugal recentemente, em novembro e 
fevereiro. A situação que se pode constatar é de que os jornais não ficavam um 
dia sem estampar em suas manchetes notícias de inúmeras empresas que fechavam. 
De todas as áreas, farmacêutica, turística, bancária etc. 
<BR>&nbsp;<BR><STRONG>CC: Avaliando as saídas para a atual crise, que além de 
econômica tem uma forte e reconhecida vertente ambiental, é fato que o planeta 
terra não vai conseguir atender a toda a humanidade a se prosseguir a lógica 
atual do capital. Estamos, assim, metidos em um buraco de proporções razoáveis. 
Ainda que não esteja no horizonte próximo o fim do capitalismo, configura-se uma 
crise do modo de produção capitalista?</STRONG> <BR>&nbsp;<BR>RA: Claro. Se a 
economia continua em retração e crise, ela desemprega. Ao manter o desemprego, 
aumentam as mazelas e a barbárie, em amplitude global. Vivemos uma situação 
desesperadora para muitos milhões de trabalhadores e trabalhadoras, com bolsões 
cada vez maiores de "supérfluos", "descartáveis", para os quais não há qualquer 
programa efetivamente alternativo de saúde, previdência, remuneração social etc. 
São os bolsões que vivenciam as mais brutais precariedades. <BR>&nbsp;<BR>Como 
disse acima, estamos numa longa crise, cujo epicentro se altera. Por exemplo: os 
EUA estavam em crise profunda nos anos 70, recuperaram-se no final dos anos 80 e 
nos 90, depois entraram em novo desabamento; ou o Japão, no auge nos anos 70, 
época do milagre japonês, até os anos 80, e que num dado momento entrou num 
quadro crítico que se mantém até agora. Portanto, o epicentro da crise se 
alterna, mas suas conseqüências são profundas para a classe trabalhadora. 
<BR>&nbsp;<BR>A China, por exemplo, apresentou níveis altíssimos de crescimento, 
chegando a 12% ao ano, mas hoje vive uma retração também fortíssima. E imagine o 
que é uma retração num país como a China, de quase 1,5 bilhão de habitantes e 
quase 1 bilhão de População Economicamente Ativa. Imagine cada ponto percentual 
a menos de crescimento, em quantos milhões de desempregados isso resulta. E o 
trabalhador chinês que foi para a cidade, nesse salto capitalista da década de 
90, não tem como retornar ao campo, pois lá não há alternativas de trabalho. E 
ele já viveu uma socialização no mundo urbano que faz a volta ao campo deixar de 
se colocar como possibilidade. <BR>&nbsp;<BR>Se a economia se mantém em 
depressão, então, o desemprego aumenta; se, em contrapartida, dá sinais de 
crescimento, teremos a destruição da natureza, aumento da poluição ambiental, 
degelo acentuado, uma confluência de destruições trazendo riscos profundos à 
humanidade. <BR>&nbsp;<BR>Assim, veja a tragédia em que nos encontramos: se 
aumentar o desemprego, a barbárie social se torna ainda mais brutal; se 
retomarmos o ritmo de crescimento, teríamos aumento de doenças, contaminações e 
demais conseqüências, como já vemos em grandes cidades do mundo, com o 
agravamento da poluição cada vez mais insuportável. "Se correr o bicho pega, se 
parar o bicho come". É a tragédia que vivemos. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>CC: Qual a 
alternativa que se apresenta? Há como começar a buscá-la pela perspectiva 
neokeynesiana tão em voga nessa crise, a partir de reformas do Estado dentro do 
capitalismo, com maior regulamentação do mercado?</STRONG> <BR>&nbsp;<BR>RA: Se 
olharmos o século XX veremos que o keynesianismo e o neokeynesianismo foram 
fagocitados pelo sistema do capital. De 1945 a 1968, apogeu do sistema 
keynesiano, do welfare state, quando parecia no final dos anos 60 que o Estado 
havia controlado o capital, vimos o inverso: o capital engoliu e desestruturou o 
Estado a tal ponto que criou o Estado neoliberal, que nada mais é que um Estado 
forte para os capitais e completamente destroçado no que diz respeito às suas 
atividades públicas, coletivas e sociais. O que é público foi destroçado e um 
poderoso Estado todo privatizado foi fortalecido. Foi o que vigorou desde a 
eleição da Margareth Thatcher, que tragicamente, poucos dias atrás, completou 30 
anos da vitória desta verdadeira hecatombe social, com a subseqüente expansão do 
neoliberalismo para praticamente a totalidade dos países do continente, salvo 
poucas exceções. <BR>&nbsp;<BR>E há outra experiência que deve ser lembrada, a 
soviética. Fruto de uma revolução socialista e popular em 1917, ela também, em 
sua processualidade complexa e contraditória que aqui não podemos explicar, 
fortaleceu e hipertrofiou o Estado ao limite. Podemos dizer que lá não houve a 
constituição do sistema socialista, mas um fortíssimo processo de estatização da 
economia e regulação, e mesmo eliminação, em vários aspectos, do capitalismo. E 
o que aconteceu? Em 1989, o sistema de capital, que se manteve inalterado 
(conforme a indicação de Mészáros), acabou destruindo esse Estado todo poderoso 
soviético, o chamado "bloco socialista". Esse histórico nos faz crer que a idéia 
de fortalecer o Estado para superar a crise é um misto de farsa e também de 
tragédia. <BR>&nbsp;<BR>O desafio de hoje é de outra amplitude. A crise é 
sistêmica e estrutural porque coloca em xeque, primeiro, a sobrevivência da 
humanidade, já que sua força de trabalho é destruída em quantidades 
inimagináveis - nunca houve tanta conversão de milhões de homens e mulheres, que 
dependem do trabalho para sobreviver, ao desemprego. Não que adorem trabalhar, 
mas sem isso eles não vivem, não se reproduzem em sociedade. Atingida a casa das 
centenas de milhões por essa parcela que não encontra trabalho, a destruição 
sócio-humana é brutal. <BR>&nbsp;<BR>O processo de destruição da natureza também 
chega a proporções inimagináveis. Não podemos mais dizer que a destruição 
ambiental é um risco para o futuro da humanidade, pois o é para o presente. Se a 
humanidade vem sendo destroçada diuturnamente, é um desafio seu repor a questão 
da construção de um novo modo de produção e de vida que, em primeiro lugar, 
resgate o sentido estruturante e fundamental do trabalho como criador de bens 
materiais, culturais e simbólicos totalmente úteis e necessários para a 
humanidade. Em segundo lugar, é preciso um sistema de metabolismo, para usar 
expressão de Marx, entre a humanidade, que expresse a recriação de ambos, 
trabalho e natureza, não a destruição de ambos. Isso o sistema de capital, com 
seus imperativos e constrangimentos, impede que se realize. 
<BR>&nbsp;<BR>Portanto, o desafio central do início do século 21 é a superação 
do sistema do capital e a retomada do projeto socialista. O que coloca outra 
questão vital: as saídas da crise, para um lado ou outro, dependerão da 
temperatura das lutas sociais em escala global, dependerão do patamar da luta 
entre as forças sociais do trabalho, de um lado, e as forças destrutivas do 
capital, de outro. No passado se dizia: esse é o búsilis da questão! 
<BR>&nbsp;<BR><STRONG>CC: De que tipo de socialismo estamos falando para o 
século 21, a seu ver?</STRONG> <BR>&nbsp;<BR>RA: Claro que não pode ser a 
repetição do socialismo experimentado no século 20. Assim como fracassou o 
sistema keynesiano, como falamos anteriormente, é evidente que a experiência 
russa, a chinesa, para ficar nas mais importantes, também fracassaram. 
<BR>&nbsp;<BR>Sobre a russa não paira mais nenhuma dúvida, uma vez que a ex-URSS 
já se reconverteu ao império do capitalismo à força; e a tragédia da China é de 
tal amplitude que hoje há milhões de desempregados, com milhares de levantes 
ocorrendo a cada fechamento de fábrica. Tanto é assim que a China vem sendo um 
laboratório de lutas sociais, enfrentamentos e tensões fundamentais, o que não 
pode ser atribuído à Revolução de 49, pelo contrário. Parece evidente que a 
China atual não tem mais nenhum vínculo forte com a sua Revolução original. 
Basta dizer que há três anos o PC reconheceu em seu estatuto o direito de a 
burguesia se filiar ao partido, uma completa heresia para qualquer variante do 
marxismo! E mais: a camada de novos milionários nascida na China da última 
década criou uma burguesia milionária que não permite falar seriamente em nenhum 
tipo de socialismo chinês. <BR>&nbsp;<BR>Resolver a situação dizendo que lá há 
"socialismo de mercado" é desconhecer a formulação decisiva de Marx, que poderia 
ser sintetizada assim: "onde há mercado capitalista, não sobrevive o socialismo. 
E onde há socialismo efetivamente construído, não pode haver mercado 
capitalista". Sendo assim, a equação do "socialismo de mercado" se mostrou 
falaciosa. Pode ter hoje uma justificativa ideológica do governo chinês, mas as 
condições de exploração do trabalho na China inspiram muitos dos próprios países 
capitalistas... <BR>&nbsp;<BR><STRONG>CC: Nesse sentido, como se coloca a 
perspectiva socialista, qual seja, como avançar rumo ao socialismo? Um projeto 
socialista não poderia, ou deveria, começar por pequenas reformas, como, por 
exemplo, a luta por uma jornada menor?</STRONG> <BR>&nbsp;<BR>RA: É claro que 
esse é um processo mais complicado. Nós sabemos como o socialismo no século 20 
não deu certo. Assim como o sistema keynesiano fracassou em regular o capital, o 
sistema soviético fracassou em destruí-lo, tendo ocorrido o contrário. Essas 
são, portanto, experiências que devem passar por um profundo crivo analítico. 
<BR>&nbsp;<BR>A redução da jornada de trabalho não é uma bandeira pequena, pois 
mudá-la é tocar no ponto fundamental de Marx: o tempo. O capital converte o 
tempo no tempo do capital. Deixar o controle do tempo nas mãos da humanidade ou 
do capital não é uma questão pequena, não é uma medida reformista singela. 
<BR>&nbsp;<BR>Mas o interessante na crise é que ela fez virar pó a idéia de que 
o capitalismo é eterno, na qual tanto se havia acreditado. Eis o primeiro ponto 
importante a ser mostrado a todos. Usando uma frase genial do Marx, tudo que é 
sólido se liquefaz. Ou seja, o capitalismo vive um processo de derretimento. 
Quantos trilhões de dólares viraram pó? Citybank e todos os seus afiliados 
tiveram desvalorização monumental nas transações nos EUA; a GM e a Chrysler 
estão à beira da falência. Ou seja, o capitalismo conseguiu, com suas próprias 
contradições, estabelecer uma crise muito profunda. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>CC: A 
classe trabalhadora tem como costurar um projeto nesse sentido hoje? 
<BR></STRONG>&nbsp;<BR>RA: Outro ponto nesse sentido, de tudo que é sólido se 
liquefazer, é que as lutas dependem do nível de confrontação social, do patamar 
das lutas sociais entre as classes. É isso que definirá para qual caminho vai 
uma reforma. Ninguém disse que o capitalismo vai acabar. Podem-se prolongar por 
decênios crises que vão sendo empurradas com a barriga, aumentando a 
socialização das perdas, de modo que o mundo do trabalho pague pelas perdas do 
capital. Essa é a alternativa do capital. Depois, ele faz do Estado um pêndulo. 
Ora um Estado mais intervencionista, ora um Estado não intervencionista. 
<BR>&nbsp;<BR>Que sistema e modo de vida queremos? Isso nos obriga a discutir o 
princípio do trabalho, se ele se estrutura no capital ou na humanidade. Se for 
na humanidade, deve desestruturar o capital. Também devemos discutir que relação 
metabólica queremos. É um completo equívoco no meu entender imaginar que podemos 
ter uma vida transformada sob o comando da propriedade privada. Assim, 
coloquemos novamente em discussão o sentido da propriedade privada. Ela tem como 
conseqüência o enriquecimento de menos de 1% da população, enquanto mais de 90% 
fica despossuída. A embaralhada em que estamos é de grande envergadura. 
<BR>&nbsp;<BR>Diria, de forma conclusiva, que vivemos algo parecido ao início do 
século 20. Nessa época, fazendo um paralelo geofísico, as placas tectônicas se 
movimentaram. Tivemos revoluções, a vitória dos países aliados, o nascimento e 
morte do chamado bloco soviético, enfim, uma reorganização muito grande do 
mundo. Agora, começamos o século 21 com as placas também nervosas, se mexendo. 
Temos um nível de temperatura social que coloca, em nível mundial, as forças do 
trabalho em oposição às do capital. <BR>&nbsp;<BR>Não desconsidero o fato de que 
os últimos 30 anos marcaram a contra-revolução burguesa no sentido global, mas 
essa vitória do capital sobre o trabalho começa a dar sinais de esgotamento, com 
a crise do neoliberalismo, a crise estrutural do capital e o nascimento de uma 
nova morfologia do trabalho, cujo traço particular são as novas formas de lutas 
sociais. Por exemplo, a América Latina tem mostrado avanços em várias partes, 
através de descontentamentos sociais. Na Ásia – China, Coréia, Indonésia, Japão 
–, existem contradições muito profundas, também com lutas sociais. O mesmo 
ocorre muitas vezes na África, na América do Norte e até na Europa. 
<BR>&nbsp;<BR>As placas tectônicas estão se mexendo, há uma nova morfologia do 
trabalho e essas lutas, apesar de tudo, são as lutas históricas que conhecemos - 
greves e manifestações. Por outro lado, existem também novas lutas, como aquelas 
contra a privatização da água, dos minérios e riquezas energéticas, que colocam 
a temperatura social em ebulição. <BR>&nbsp;<BR>Não estamos dizendo que está 
acabando o capitalismo, mas temos razoável convicção de que ele tampouco é 
eterno. A equação dessa crise passa pela temperatura das lutas sociais e sua 
conflagração entre as classes. Isso pode significar retrocesso, com uma 
extrema-direita no poder – imaginem um retrocesso num mundo que já tem 
Berlusconi e Sarkozy -, ou uma retomada no século 21 das potencialidades das 
lutas sociais. </DIV>
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<HR>
</DIV>
<DIV align=center><STRONG><FONT size=3><FONT color=#800000 
size=4>Correspondencia de Prensa</FONT><BR>boletin solidario de información - 
edición internacional<BR></FONT></STRONG><A 
href="mailto:germain5@chasque.net"><STRONG><FONT 
size=3>germain5@chasque.net</FONT></STRONG></A><BR><STRONG><FONT size=3><FONT 
color=#800000 size=4>Agenda Radical - Colectivo 
Militante</FONT><BR></FONT></STRONG><A 
href="mailto:Agendaradical@egrupos.net"><STRONG><FONT 
size=3>Agendaradical@egrupos.net</FONT></STRONG></A><BR><STRONG><FONT 
size=3>Gaboto 1305 - Teléf: (5982) 4003298 - Montevideo - 
Uruguay</FONT></STRONG><BR></DIV>
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<HR>
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