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<DIV align=center><STRONG><FONT size=4><U>boletín solidario de 
información<BR></U><FONT color=#800000 size=5>Correspondencia de Prensa 
<BR></FONT><U>17 de noviembre 2010<BR></U><FONT color=#800000 size=5>Colectivo 
Militante - Agenda Radical<BR></FONT>Gaboto 1305 - Montevideo - 
Uruguay<BR>redacción y suscripciones: </FONT></STRONG><A 
href="mailto:germain5@chasque.net"><STRONG><FONT 
size=4>germain5@chasque.net</FONT></STRONG></A></DIV>
<DIV>
<HR>
</DIV>
<DIV>&nbsp;</DIV>
<DIV><STRONG><FONT size=3>Brasil</FONT></STRONG></FONT></DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial><STRONG></STRONG></FONT>&nbsp;</DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial><STRONG>"Lula consolidou o capitalismo e 
instrumentalizou o Estado no Brasil"&nbsp; <BR></STRONG></FONT></DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial size=2></FONT>&nbsp;</DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial size=2><STRONG></STRONG></FONT>&nbsp;</DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial size=2><STRONG>Valéria Nader e Gabriel 
Brito, da Redação&nbsp;&nbsp;</STRONG></FONT></DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial size=2><STRONG>Correio da 
Cidadania&nbsp;&nbsp;</STRONG></FONT></DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial size=2><A 
href="http://www.correiocidadania.com/"><STRONG>http://www.correiocidadania.com/</STRONG></A></FONT></DIV>
<DIV align=justify><FONT face=Arial size=2><BR>&nbsp;<BR>Com a confirmação no 
segundo turno da eleição de Dilma Rousseff, o país se prepara para viver a etapa 
pós-Lula, o pai dos pobres que deixou a presidência com consagradora aprovação, 
inclusive daqueles que um dia ameaçaram abandonar o país caso o operário 
chegasse ao Planalto. <BR>&nbsp;<BR>Para analisar a vitória petista e o que se 
pode esperar do futuro brasileiro, o Correio da Cidadania entrevistou Ildo 
Sauer, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP e ex-diretor de Petróleo e 
Gás da Petrobrás na gestão de Lula até 2007. Para explicar como Lula "consolidou 
a hegemonia do capitalismo sobre as relações sociais e de existência", vai às 
vísceras da política nacional, desnudando o seu funcionamento no "pós-mensalão" 
e a partilha das riquezas nacionais entre os mesmos setores privilegiados de 
sempre. <BR>&nbsp;<BR>Para sustentar tamanha metamorfose em relação ao projeto 
original petista, Ildo aponta como Lula soube instrumentalizar o aparelho 
estatal, avalizando o apoderamento da máquina pública, a partir de inusitados 
formatos, por representantes de grandes grupos econômicos. "Entregar de 2,6 a 
5,5 bilhões de barris de petróleo e uma hegemonia tecnológica do núcleo da 
Petrobrás ao Eike, sem nenhuma resistência, foi algo brutal contra o interesse 
público. Portanto, são vários formatos de privatização". <BR>&nbsp;<BR>Ildo faz 
um importante alerta: a ‘nova cartada’ na ‘partilha’ do patrimônio público 
vincula-se ao Pré-Sal, a partir do ‘poder autocrático e unilateral do 
presidente’, ao lado da desmobilização e cooptação de grande parte do movimento 
social. Situação que remeteria a uma mistura entre os processos vistos no México 
- onde o PRI (Partido Revolucionário Institucional), que ficou no poder entre 
1917 e 1994, instrumentalizou a riqueza do petróleo - e na Argentina - com um 
sindicalismo na gaveta do Estado, cujo papel se restringe a dar legitimidade 
social ao governo, que, em troca, atira os restos do banquete em forma de 
assistencialismo. <BR>&nbsp;<BR>Apesar de lamentar seu pessimismo ao final da 
conversa, e como alguém que participou diretamente da gestão Lula, o engenheiro 
não fez concessões para descrever as engrenagens da política brasileira, 
inclusive desvelando a futura esterilidade da Lei da Ficha Limpa. Terminou com 
uma autocrítica de quem partilhou dos sonhos dos anos 80. 
<BR>&nbsp;<BR>C<STRONG>orreio da Cidadania: Como encarou o período eleitoral, os 
debates que foram levados a cabo, culminado com a vitória de Dilma Roussef 
nessas eleições? <BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: De certa forma, a campanha 
eleitoral acabou sendo resolvida em parte pela longa metamorfose pela qual o 
governo Lula passou. Logo em seu início, quando liderava um governo 
hegemonicamente do PT, veio a Carta aos Brasileiros, a fim de garantir algo que 
era razoável – estabilidade econômica, tranqüilidade social, pois se esperava um 
processo de profundas mudanças por parte dos mercados. Uma carta que, portanto, 
tornava o governo aparentemente aceitável para alguns segmentos como estratégia 
de transição. <BR>&nbsp;<BR>Evidentemente, todo mundo concordava com a 
necessidade de estabilidade da moeda, redução do processo inflacionário, já que 
o sistema capitalista de produção ainda seria hegemônico de qualquer maneira e 
por longo tempo, e isso tinha de ser mantido. Mas progressivamente, após 2003, 
2004 e 2005 passarem tranqüilos, apareceu a ironia de o sucesso do Lula ser o 
anti-Lula, o avessso de si mesmo, o que foi percebido pelo mercado, pelo sistema 
financeiro internacional e pela burguesia nacional. Então, o anti-Lula, que de 
fato residia dentro do Lula, garantiu a estabilidade, sendo seu próprio fiador, 
à medida que revelou como líder aquilo que alguns já tinham percebido em seu 
entorno, mas que não estava claro: o partido passou a ser secundário, e a figura 
carismática de Lula ficou como fiadora das expectativas da burguesia, ao mesmo 
tempo em que era profundamente donatário e depositário das esperanças do 
processo construído ao longo de décadas em torno do PT, da mudança. 
<BR>&nbsp;<BR>O processo que ele conduziu foi o de garantir as expectativas de 
grande retorno ao capital financeiro, via juros, aparelhamento das empresas 
públicas, BNDES, para manter a taxa de investimento, numa transformação da 
estrutura produtiva brasileira que se manifestou em vários campos hegemônicos. 
Criou-se uma petroleira brasileira que faz sombra à Petrobrás – a OGX de Eike 
Baptista; a petroquímica ficou em torno do grupo Odebrecht; nas 
telecomunicações, após uma disputa quase de faroeste, com espionagem, dois 
ministros envolvidos, fundos de pensão, terminou por hegemonizar o grupo 
Telemar, encastelado no grupo Jereissati e Andrade Gutierrez, com a 
coincidência, ou não, de seu principal executivo ser amigo de infância da nova 
presidente; nas obras de infra-estrutura, o BNDES consolidou outros grupos 
econômicos com hegemonia no Brasil e exterior, nas áreas de agronegócio, carnes, 
frigoríficos. Há a Vale, que vinha do governo FHC, mas no fundo o Lula criou um 
monte de Vales; instrumentalizou os fundos de pensão, as estatais, o BNDES e 
outros bancos para financiar tais ações. E mais ainda: hegemonizou um 
protagonismo na África, América Latina, de grupos econômicos como vendedores de 
equipamentos, obras de infra-estrutura, hidrelétricas, rodovias e outros 
projetos financiados pelo BNDES. Uma espécie de sub-imperialismo. 
<BR>&nbsp;<BR>Com isso, a agenda do PSDB - a chamada social-democracia que na 
prática implementou todos os cânones do neoliberalismo hegemônico dos anos 90 - 
foi seqüestrada pelo Lula. Lula seqüestrou a agenda da burguesia, mantendo e 
ampliando os espaços abertos pelo governo tucano, e ao mesmo tempo se manteve 
depositário da esperança de um processo longamente construído. 
<BR>&nbsp;<BR>Assim, nestas eleições, havia pouco espaço para uma candidatura 
legitimamente de esquerda ser ouvida pelas bases, pois ainda há toda essa 
herança construída de esperança e transformação, ainda formalmente depositada 
pela população no PT. Isso é demonstrado pelo voto. De onde veio a grande 
vitória do governo? De regiões que antigamente eram chamadas pelo depreciativo 
nome de grotões. Mas hoje não existe esse tipo de coisa na democracia, os votos 
têm o mesmo valor. <BR>&nbsp;<BR>É bom observar tais ondas da percepção 
política. Na ditadura, o MDB, que liderou a resistência eleitoral a ela, se 
tornou hegemônico nos grandes centros urbanos, progressivamente encurralando a 
ARENA a regiões periféricas. Veio o PT e o solavanco da social-democracia, 
varrendo o PMDB pra periferia e tomando seu espaço nos centros urbanos. Agora, é 
interessante ver o misto: a hegemonia do PT voltou a essas regiões periféricas, 
com menor grau de desenvolvimento e acesso ao processo de consumo e renda. 
<BR>&nbsp;<BR>Enquanto isso, criou-se nos grandes centros a onda verde, do 
discurso ambiental, de sustentabilidade, mas sem conteúdo fortemente social, 
problema básico do país. E ao mesmo tempo, veio o ressurgimento do discurso 
conservador - numa social-democracia, do ponto de vista teórico, expresso pelo 
PSDB. No limite do pouco que PT e PSDB expressam programaticamente, o PT em tese 
é social-democrata, mas muito mais operador da máquina – levou-nos a um discurso 
um pouco mais populista contra outro um pouco mais elitista, com pequenas 
nuances na forma de abordar o Estado. Não vejo muita diferença entre privatizar 
uma empresa ou instrumentalizá-la em favor dos interesses privados. Portanto, 
nesse sentido, os projetos são parecidos, tanto que não geraram entusiasmo. 
<BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: Os votos nulos, brancos e abstenções 
nesta eleição são significativos deste quadro que o senhor ressalta, de mais 
semelhanças do que diferenças entre os blocos de poder representados por PT e 
PSDB? <BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: Sim, é importante notar, para 
simplificar essa análise inicial: os votos brancos, nulos e abstenções atingiram 
28%, dentro de um eleitorado de 135 milhões. O candidato que ficou em segundo, 
teve 32%; 32 mais 28, já se vão 60%, enquanto os restantes 40% ficaram com a 
candidata vencedora. De modo que esse é o quadro resultante da longa metamorfose 
do projeto que nasceu socialista e progressivamente virou gestor dos interesses 
da burguesia nacional, do setor financeiro, industrial, do setor contratista de 
obras públicas, expressos no Brasil e no exterior. A grande diferença para o 
PSDB é que o PT ainda conta com a enorme confiança e esperança dos setores mais 
distantes, das cidades mais periféricas e mais pobres. O futuro mostrará, no 
entanto, as semelhanças entre ambos os partido, à medida que o debate evoluir e 
isso for decantado, com a transparência e capacidade de mobilização aparecendo. 
Os movimentos sociais têm uma clara identificação histórica, assim como as 
regiões que citei, com o PT. O movimento ambiental se ancorou na Marina, mas se 
dividiu. Esse é o quadro brasileiro. <BR>&nbsp;<BR>Para definir, o governo Lula 
foi aquele que consolidou as relações sociais de existência e de trabalho 
capitalistas com a hegemonia capitalista no país. Até Lula chegar ao poder, 
havia a dúvida se aqui poderia nascer um experimento de caráter 
social-democrata, mas profundamente transformador, que apropriasse socialmente 
os excedentes econômicos provenientes das rendas, com controle público sobre o 
petróleo, telecomunicações, potenciais hidráulicos, sobre tudo que é patrimônio 
da nação, inclusive a terra, cujo resultado econômico seria apropriado para fins 
públicos. Mais do nunca, vemos uma privatização e internacionalização da terra; 
ao invés de fazermos a reforma agrária, nós estamos internacionalizando cada vez 
mais o agronegócio e o acesso à terra. <BR>&nbsp;<BR>Portanto, o governo Lula 
foi o que consolidou o capitalismo no Brasil, gerando a tal falta de diferença 
na campanha. <BR>&nbsp;<BR>Era nítido que todos procuravam mostrar quem tinha 
feito mais disso ou daquilo no passado. Mas não se discutiu a reforma da 
educação, necessária, com conceito e amplitude, horizontalização; não se 
discutiu a reforma agrária, que ficou escondida; não se discutiu a reforma 
urbana, a questão da moradia, do planejamento, abarcando onde as pessoas vivem, 
trabalham, circulam, enfim, a mobilidade de um transporte público de qualidade; 
não se discutiu a questão da reforma da saúde, e não há um brasileiro que queira 
estar submetido ao nosso sistema de saúde público, muito bem concebido e mal 
implementado. Ninguém deseja circular nos transportes públicos nas grandes 
metrópoles; ninguém acredita que a proteção ambiental hoje, da qualidade do 
solo, ar e água nas cidades e em termos globais, seja aceitável; ninguém está 
satisfeito com o volume de investimento em ciência, tecnologia e pesquisa. 
<BR>&nbsp;<BR>E, no entanto, o país parece feliz, o que é um paradoxo. De onde 
vem isso? Creio que da pequena sensação de bem estar, promovida por uma 
conjuntura econômica, externa e interna, favorável. <BR>&nbsp;<BR>Com a situação 
pós 2ª. Guerra, a visão cepalina da economia, de Celso Furtado e tal, denunciava 
o subdesenvolvimento em parte como produto da deterioração dos termos de troca, 
em que a produção primária – essencialmente minérios, agricultura –, por ser de 
baixo grau de manufatura, exportada pelos países latinos, se defrontava com o 
enorme valor atribuído às importações de produtos de maior conteúdo tecnológico 
e industrializados. <BR>&nbsp;<BR>Houve uma reversão desse processo comandada a 
partir do dinamismo da economia chinesa, que passou a ter a necessidade do 
afluxo de alimentos, matérias-primas etc., para poder incorporar 40, 50 milhões 
de chineses todos os anos ao processo modernizado de produção, saindo da 
atividade camponesa, braçal, de baixo nível de apropriação energética, para o 
nível de produção industrial urbanizada. Portanto, acho que essa situação da 
China e da Ásia comandou tal transição, fazendo sua revolução industrial e 
urbana, iniciada nos anos 70, com uma grande quantidade de empresas estatais 
planejando estrategicamente e implementando. Na China, a renda da terra não 
existe. Os solos urbano e rural pertencem ao Estado. Assim, o preço da terra e 
da moradia, como custo de reprodução da força de trabalho, são bem menores, 
propiciando o acúmulo de enormes excedentes. <BR>&nbsp;<BR>O dinamismo chinês, e 
em parte indiano também, permitiu, mesmo com a crise de 2008 que afetou Europa e 
EUA, que não se afetasse a valorização progressiva dos produtos primários 
brasileiros. Porém, ao mesmo tempo, assistimos à deterioração da nossa balança 
de pagamentos, porque a taxa de câmbio é muito valorizada em função da alta taxa 
de juros, devido à necessidade de atrair dólares para nossas reservas – as 
quais, por si só, já custam muito, pois implicam em ampliação da dívida pública 
interna para a compra e manutenção dessas reservas, com um custo de 12% ao ano 
sobre os 270 bilhões de dólares de reservas. A dívida pública não pára de 
crescer desde o governo FHC, já tendo alcançado R$ 2,2 trilhões, parcela 
significativa do PIB, de maneira que tal quadro deixa a preocupação com a 
desindustrialização futura. <BR>&nbsp;<BR>De qualquer maneira, tal período de 
prosperidade comandado por essa conjuntura internacional foi determinante para a 
pequena sensação de bem estar, que permitiu dar um pouquinho mais para os que 
nada tinham, e muito mais para aqueles que já tinham muito, configurando a 
partilha do governo Lula, consolidando definitivamente as relações sociais 
capitalistas e abafando a expectativa de um movimento social que propunha outro 
quadro. É isso que foi revelado. O discurso tradicional da esquerda foi 
seqüestrado, e de certa forma também foi seqüestrada a prática da direita. E o 
Lula, com uma mão de cada lado, emplacou sua candidata, ainda que de forma muito 
mais apertada do que podia supor a dita popularidade de seu governo. 
<BR>&nbsp;<BR>Assim, o que vejo no próximo governo é o aprofundamento do 
capitalismo nessa trajetória e, a partir daí, talvez, um espaço para o novo 
debate. É a minha percepção. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: 
Portanto, Dilma levará adiante o legado de Lula, reforçando as tendências 
neoliberais, como a continuidade da política econômica, ao lado das tendências 
sociais/assistenciais do governo Lula, com eventual ampliação do Programa Bolsa 
Família. <BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: É muito claro. Mais 
assistencialismo, mais Bolsa Família, quando o caminho necessário para mudar a 
sociedade é criar autonomia, promover independência, que só se faz com as 
reformas da educação, urbana, da mobilidade, agrária, da infra-estrutura... Falo 
reforma, não revolução; reestruturar o que existe, dando novos sentidos, direção 
e conteúdo. <BR>&nbsp;<BR>Como o produto social é único no PIB, é preciso 
escolher em que direção vão os recursos, que caminho teremos. E o que está aí é 
mais do mesmo. Grande parte da poupança é canalizada pelos bancos públicos, e 
muito pouco se reverte em investimento público, como se viu, por exemplo, no 
programa Minha Casa Minha Vida. Todos reconhecemos a enorme carência da 
habitação, mas não só isso. Além de casa, as pessoas precisam de transporte, 
escola, morar menos distantes do trabalho... A reforma urbana tem de ser mais 
ampla. <BR>&nbsp;<BR>E o que esse programa engendrou? Um enorme movimento de 
especulação imobiliária, em que a renda do solo urbano acabou enriquecendo 
pequenos grupos especuladores. E mais ainda: hoje temos uma longa ironia sobre a 
promessa de ‘minha vida’ e ‘minha casa’. O que se criou? Dinheiro dos fundos 
públicos, dos fundos de garantia, do FAT, que são poupanças mandatórias da força 
de trabalho e que recebem uma remuneração abaixo do valor capitalista, de 3% ao 
ano de juros sobre o fundo de garantia, sendo apropriado pela Caixa, que 
empresta esse dinheiro muitas vezes a empresas estrangeiras, muitas das quais 
fracassaram no mercado imobiliário dos EUA e agora estão aqui. Elas tomam esse 
dinheiro, compram a força de trabalho dos trabalhadores, construindo a casa com 
a força de trabalho e a poupança deles, com mediação dos bancos e lucro enorme, 
terminando por criar uma dependência de 20, 30 anos do trabalhador com as 
prestações sobre aquilo que foi uma valorização extraordinária do capital 
originalmente do próprio trabalhador, que o poupou compulsoriamente via fundo de 
garantia. <BR>&nbsp;<BR>Nesse caminho, o que houve? A especulação do solo 
urbano, que explodiu de preço, um sobrepreço enorme no custo do trabalho 
incorporado aos insumos e mão-de-obra. Aí se expressa o verdadeiro caráter 
capitalista desses projetos ditos sociais. Há outros modelos, desde os mutirões, 
cooperativas e uma estrutura planejada, com o planejamento urbano retomado da 
localização urbana em relação à escola, trabalho, planejando também a 
mobilidade. <BR>&nbsp;<BR>De repente, isso permitiria não soltar da garrafa com 
tanta força o espírito da especulação e da acumulação quase primitiva sobre o 
solo urbano e a construção. Digo isto pra mostrar como projetos que ancoraram 
grande parte da aprovação ao governo são na verdade mais do mesmo, significando 
cada vez mais acumulação capitalista para quem controla os meios. E, claro, 
enquanto a economia continuar crescendo, haverá uma sensação de bem estar. 
<BR>&nbsp;<BR>Podemos dizer que temos um enorme peleguismo político, para não 
chamar de populismo, paternalismo, agora maternalismo. A única solução é a busca 
de um grande debate de projeto nacional, sobre quais as propostas concretas para 
as reformas citadas anteriormente, os planos de proteção ambiental e, acima de 
tudo, para o setor do mais extraordinário excedente econômico: as rendas do 
petróleo e o setor de energia, temas varridos pra baixo do tapete, que só 
voltaram à campanha após provocações de gente externa, que mostrou claramente 
que o rei estava nu, pois ambos se acusavam de privatistas e ambos estavam 
corretos. <BR>&nbsp;<BR>O governo FHC iniciou a entrega do petróleo como um 
todo, dando razão a ambos em suas acusações – e não se pode diferenciar o 
petróleo do Pré-Sal daquele das demais camadas, pois são qualitativamente pouco 
distintos, com diferença raramente acima de 10% em seu valor; portanto, tanto 
faz 60 ou 70 dólares no preço do barril, pois de toda forma são valores 
astronômicos. O governo Lula exerceu por muito mais tempo, e talvez com mais 
gosto, o modelo de concessões criado por FHC, e no final propôs uma mudança já 
obsoleta, a da partilha, ao invés de um novo modelo. <BR>&nbsp;<BR>O que está no 
horizonte (aliás, a grande ameaça política que vejo ao país)? Se olharmos as 
experiências de México e Argentina, vemos dois paradigmas que inspiram cautela 
com o futuro. Se houver um crescimento econômico, a tendência é que a "pax 
lulensis", da mão direita grande e esquerda pequena (mas que afaga o coração e a 
consciência dos mais humildes com redistribuição), se mantenha e o capitalismo 
floresça no Brasil. Se houver crise, o governo talvez lance mão de um recurso 
que remete à história mexicana... O México fez uma revolução muito sangrenta no 
início do século passado, que se institucionalizou no chamado processo da 
Constituição de 1917; em 1938, a nacionalização do petróleo e a criação da Pemex 
passaram a gerar um fluxo de excedente econômico comandado pelo Estado e pelo 
PRI, que o permitiu ficar no poder de 1917 a 1994, quando, por corrupção, 
exaustão e crise econômica, acabou varrido por um governo mais conservador 
ainda. A partilha do excedente econômico do petróleo mexicano é algo que está no 
horizonte e merece atenção, porque o Projeto de Lei que tramita no Congresso 
delega ao presidente ouvir do conselho nomeado também por ele a definição sobre 
quase tudo que será feito; o ritmo em que o Pré-Sal será colocado em partilha, 
quem vai participar do processo e quem vai dirigir tudo. <BR>&nbsp;<BR>Nesse 
sentido, a experiência mexicana é o exemplo de como a apropriação do lucro do 
petróleo, comandada pelas instâncias do governo, permitiu uma partilha entre as 
elites, fortalecendo-as e mantendo-as no poder. Ao mesmo tempo, temos um 
movimento sindical no Brasil que perdeu seu rumo classista histórico; teve um 
período de discurso socialista de enfrentamento ao capitalismo, mas busca hoje a 
conciliação, à semelhança da Argentina, onde a principal tarefa das grandes 
centrais e sindicatos - que se enfrentam mutuamente, mas se abrigam no governo, 
que lhes dá recursos, espaço político, mantendo a corrente sindical ativa - é 
conferir uma aura de legitimidade social aos governos. <BR>&nbsp;<BR>Portanto, 
se olharmos as duas experiências, podemos vislumbrar a enorme dificuldade, mesmo 
em situações de crise daqui pra frente, que a esquerda brasileira terá em se 
reorganizar, pois está claro que o atual governo não é mais de esquerda; 
seqüestrou boa parte do discurso de esquerda, mas sua prática é nitidamente 
conservadora. <BR>&nbsp;<BR>Dessa forma, é o desafio que sobra: compreender o 
que está em jogo, buscar, talvez, uma frente de esquerda e amplificar os debates 
públicos. Uma frente que, a exemplo de outras ondas, consiga se multiplicar, 
para, na medida em que as contradições ficarem mais claras, se agrupar em uma 
iniciativa política. <BR>&nbsp;<BR>Acho que a esquerda, com seus méritos 
específicos, está muito fragmentada, em muitos partidos. Creio ser hora de 
pensar, como saída para o debate, e o atual quadro de enfrentamento, numa frente 
de esquerda que abrigue tais partidos, abrindo discussões sobre todas as 
questões em jogo, elaborando propostas concretas em torno dessas reformas e de 
como apropriar socialmente os recursos, disputando-os com o governo de turno. 
Certamente, se não houver tal pressão, a partilha será pior ainda, e creio que 
esse é o nosso papel. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: Acredita, de 
todo modo, que a futura presidente possa, de alguma forma, caminhar do foco mais 
assistencialista das políticas sociais sob o governo Lula – a exemplo do Bolsa 
Família - para um programa mais abrangente de distribuição de renda - 
incrementando, por exemplo, as políticas de valorização do salário mínimo e se 
contrapondo aos aspectos do projeto de reforma tributária, já em fase de 
discussão no Congresso, e que são prejudiciais à seguridade social? 
<BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: A campanha eleitoral deixou como ironia 
paradoxal um xeque-mate no governo que entra. A partir do momento em que a 
oposição conservadora propõe aumento do Bolsa-Família e do salário mínimo, o 
governo entrante não terá outra saída a não ser acompanhar a idéia. Paradoxal 
que tenha vindo do movimento conservador essa proposta de redistribuição. O 
alcance vai depender das contas públicas, da dívida pública e da taxa de juros 
extremamente elevada, promovendo uma dilapidação do valor do trabalho, na medida 
em que os impostos são arrecadados e encaminhados para bancar a usura do sistema 
financeiro, já que temos uma das taxas mais altas de remuneração financeira do 
mundo. <BR>&nbsp;<BR>Nos EUA, tem até um movimento em curso de aumento da 
liquidez com injeção de dólares a custo muito baixo. É uma tendência natural que 
parte significativa desses dólares saia, chegue ao Brasil, aprofunde a queda da 
taxa de câmbio daqui, aumente as reservas, ou venha fazer investimentos como 
comprar terras, desnacionalizar mais empresas na área econômica, eventualmente 
até para forçar o governo a abrir mais espaço a empresas estrangeiras na 
exploração do petróleo, quando o projeto devia ser o contrário. 
<BR>&nbsp;<BR>Devia se proceder a um maior conhecimento e delimitação das 
reservas e só produzir petróleo no ano para custear os investimentos das 
reformas da saúde, urbana, educacional, da infra-estrutura, mobilidade 
(inclusive de longa distância), agrária, viária, dos portos, da proteção 
ambiental, de ciência e tecnologia. E ficar com uma reserva de petróleo de valor 
debaixo da terra, não sendo administrada por uma oligarquia política que vai 
disputá-la a ferro e fogo dentro dos conceitos que descrevi antes. Não acredito 
que não haja nenhum investimento. <BR>&nbsp;<BR>Há uma pressão no modelo que o 
governo discute agora de promover uma rápida licitação dos contratos de 
partilha, para abrir espaço econômico de investimentos em plataformas e 
infra-estrutura, capturar finanças e converter tudo em dinheiro. Tirar o 
petróleo debaixo da terra e convertê-lo em dinheiro. <BR>&nbsp;<BR>Nesse 
processo, todo mundo vai ganhar. O governo vai acumular algum capital financeiro 
lá fora no fundo social, não se sabe em que moeda, porque todas estão em xeque 
hoje. Vão investir em títulos da dívida americana? Em euro, que não tem muita 
estabilidade, em função de sua credibilidade não estar ancorada em nenhum 
tesouro nacional (é uma confraria que tem uma moeda)? E os EUA estão em franca 
decadência. Em que moeda vamos verter o petróleo, em que país, na América 
Latina, África, EUA, Europa? É muito mais simples deixar o petróleo debaixo da 
terra e só produzir o volume necessário! <BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da 
Cidadania: E controlar de verdade a exploração. <BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo 
Sauer: E, antes disso, saber quanto tem de reserva, pra saber em que ritmo 
produzir ao longo do tempo. Por duas razões: em primeiro lugar, para tirar de lá 
apenas o excedente econômico necessário ao financiamento do projeto nacional de 
desenvolvimento econômico e social nos paradigmas que acabei de citar; e, em 
segundo lugar, para poder participar. O governo brasileiro não pode criar 
motos-contínuos, que, uma vez assinados os contratos, vão cumprir as etapas 
automaticamente. <BR>&nbsp;<BR>Encontrou petróleo? Vão fazer o plano de 
avaliação, saber se é comercial, e, se for, vão começar a produzir e, o mais 
rapidamente possível, converter em dinheiro, no interesse daquele contrato. Isso 
se choca com a necessidade de ver qual o volume de reservas disponíveis para 
financiar as prioridades nacionais e, em segundo lugar, com o controle da 
participação brasileira no mercado internacional. Porque, sem o Pré-Sal do novo 
modelo, a produção anunciada hoje, só pela Petrobrás, prevê quase 6 milhões de 
barris por dia em 2020. Só por parte de outro empresário, que recebeu desse 
governo em 2007 o volume que agora já está entre 2,5 a 5,5 bilhões de barris, 
valendo de 27 a 55 bilhões de dólares como patrimônio, já se anuncia que em 2019 
estará sendo produzido 1,4 milhão de barris por dia, sendo que a Petrobrás não 
produz 2 milhões atualmente. <BR>&nbsp;<BR>E vão exportar tudo que se refere ao 
que está fora do novo modelo do Pré-Sal, mas como parte do que FHC e Lula 
entregaram. O Brasil vai ser o 3º. maior exportador do mundo. Em primeiro lugar, 
vem a Arábia, com 10 milhões de barris/dia; depois a Rússia, com 8 milhões; o 
Brasil estará em mais de 5 milhões de barris possivelmente em 2020, enquanto os 
demais não passam de 4 milhões. Isso apenas com o que se tem hoje entregue 
somente a dois grupos, Petrobrás e OGX, leia-se Eike Baptista - fora os outros 
que estão entrando. E note bem que este grande empresário já resolveu ser 
parcimonioso. Deu 1 milhão de reais pra cada campanha, de Serra e de Dilma, 
dizendo ser necessário não ser mal tratado por nenhum dos dois. 
<BR>&nbsp;<BR>Desse modo, veja como é grave o risco da mexicanização. Uma enorme 
economia petrolífera, comandada por um governo na forma como vem se 
configurando: um condomínio de partidos e líderes com parca, digamos assim, 
capilaridade entre as forças sociais, e, ao mesmo tempo, sob pressão, do outro 
lado, dos grandes grupos econômicos, com enorme capacidade de influência. 
<BR>&nbsp;<BR>Para quem produz tantos bilhões de barris, e sabendo como é 
comprável o financiamento das campanhas eleitorais e a lealdade dos eleitos a 
esses interesses - dentro do conceito second life, do discurso público diferente 
da prática nas entranhas do poder -, este é o caminho. 
<BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: Isso é o mais impressionante. Hoje 
em dia o sujeito afirma abertamente o que pode ser entendido, sem distorção 
alguma, como a ‘aquisição particular’ do mandato – ironicamente, privatização do 
próprio parlamentar. Paga-se a propina na campanha e alguns interesses privados 
são escancaradamente atendidos por sobre outros</STRONG>. <BR>&nbsp;<BR>Ildo 
Sauer: Essa é uma parte das questões políticas e econômicas que se colocam, 
porque no fundo eu vejo as limitações, no atual estágio da sociedade brasileira, 
de um partido que no discurso mantenha a realidade, mas com propostas práticas. 
Veja que até agora só falei de reforma, não de revolução, pois não vejo espaço 
para tanto. Talvez não fosse um sonho, mas não vejo como possível. Nem essas 
reformas estão na agenda! Essa é a tragédia resultante da consolidação da 
hegemonia política. <BR>&nbsp;<BR>Por isso que PT e PSDB, que teoricamente 
teriam essa convergência social-democrata, mutuamente se excluem. Eles não 
querem um projeto, querem um espaço de poder, para manejar os recursos 
econômicos e serem gestores e líderes dessa partilha. Não há espaço para ambos 
fazerem a mesma coisa, que não é a reforma social-democrata. É gerir o 
capitalismo tal como ele está, com sua crueza, virulência, mascaramentos, 
contradições. <BR>&nbsp;<BR>Nesse sentido, o processo político brasileiro 
lamentavelmente está subordinado à hegemonia dos grandes grupos econômicos, que 
estão se convertendo em meros síndicos do grande condomínio econômico. Como 
disse, o governo Lula avançou ao consolidar grandes grupos brasileiros dos 
vários campos da economia. <BR>&nbsp;<BR>Consolidou alguns bancos, com fusões, 
principalmente após a falência de vários deles em 2008. Na área de eletricidade, 
o grupo Rede e a Camargo Correa ficaram hegemônicos na distribuição, grupos 
europeus e nacionais na transmissão e as estatais do sistema Eletrobrás foram 
convertidas em muletas voltadas a dar confiança às empreiteiras e ao capital 
privado. Tanto que a tarifa elétrica hoje é uma das mais caras do mundo ao 
consumidor cativo, e uma das mais baratas do mundo para os 600 consumidores 
privados do mercado dito livre, mas que na verdade é apenas usurpador. Na área 
da petroquímica, a Braskem se tornou hegemônica, com a Petrobrás servindo de 
âncora, por imposição do governo. Na área do petróleo, o caso mais notório é o 
da OGX, mas há outros grupos nacionais e internacionais crescendo muito aqui, na 
única das três grandes fronteiras mundiais do petróleo que lhes permite. 
<BR>&nbsp;<BR>Além disso, o grande patrimônio brasileiro hoje na área de 
petróleo é duplo. De um lado, os recursos naturais estão debaixo do sal e da 
terra, valendo quase o mesmo. A organização social capaz de convertê-los em 
riqueza quando necessário e a Petrobrás estão, ambas, sendo alvo dessa mediação 
da entrega. Como exemplo, a OGX, como já ressaltado, criada em meados de 2007 - 
informação já confirmada pelo governo -, com ajuda de ex-integrantes dos 
governos Lula e FHC, arrancou lucros estratégicos sem nenhuma resistência e ação 
do governo. E logo depois de comprar os blocos em novembro de 2007, vendeu 38% 
das ações por 6,7 bilhões de reais, 11 meses depois de criada. 
<BR>&nbsp;<BR>Portanto, ela já valia 17 bilhões e, ao fazer os primeiros furos, 
conforme previsto e denunciado previamente em 2009, já anuncia reservas de 2,6 a 
5,5 bilhões de barris. E cinco bilhões de barris equivalem a tudo que o governo 
incorporou da Petrobrás pra aumentar seu capital, no valor de 42 bilhões de 
dólares hoje. O valor de mercado hoje seria dessa ordem, o que colocou um senhor 
como o mais rico do Brasil e um dos mais ricos do mundo, tornando-o generoso em 
filantropia. Vai às favelas, duplica a generosidade do presidente da República, 
ao arrematar o seu terno de posse em um leilão por 500 mil. E ainda o devolve ao 
presidente, dobrando a aposta. Vai ao Teatro Municipal e vira mecenas da arte e 
cultura, com migalhas do que herdou num lance articulado nos bastidores do 
governo, que não reagiu. <BR>&nbsp;<BR>Esse é o indicador claro do risco que 
falo da articulação em torno do petróleo como mecanismo aglutinador de forças e 
recursos para manter a hegemonia político-eleitoral. É um exemplo concreto e 
aconteceu agora. Os mesmos atores estão vivos, reavivados e abençoados nas 
urnas. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: Em entrevista ao Correio, o 
sociólogo Chico de Oliveira afirmou que, na medida em que o governo Lula tem 
consolidado no Brasil o ‘capitalismo monopolista de Estado’, chega a ser mais 
privatizante do que o de FHC. Ao mesmo tempo, o senhor ressaltou há pouco que 
não há muita diferença entre privatizar uma empresa ou instrumentalizá-la em 
favor de interesses privados, e que está se consolidando no Brasil uma partilha 
do espaço produtivo entre grandes grupos econômicos, entre eles Camargo Corrêa, 
Odebrecht, Eike Baptista, sob patrocínio do governo e com a ajuda do BNDES e dos 
fundos de pensão. Essas duas assertivas não estão bem associadas entre si? 
<BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: Sim, e caso não haja uma resistência popular 
organizada, com capacidade de entendimento da dimensão política, compreendendo 
que uma onda de mudança hegemonizada pelo PT não mais está em curso - em função 
da metamorfose do partido –, corre-se um sério risco de se consolidar esse curso 
econômico. <BR>&nbsp;<BR>Mas os movimentos sociais ainda estão presos a isso, e 
é difícil recriar e mudar tal compreensão. É o desafio político: ter uma 
proposta e a capacidade de fazê-la compreendida em seus conceitos pelas bases, 
os verdadeiros interessados, ou seja, os trabalhadores, os grupos sociais, 
estudantes, todos aqueles excluídos da grande festa; aqueles que habitam a 
senzala da esperança, enquanto a Casa Grande faz a festa. E o padrinho, e também 
a madrinha, tem uma mão muito gentil na Casa Grande, enquanto a outra, 
pequenina, apenas acaricia o povo que mora na senzala. 
<BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: O grande patrimônio brasileiro na 
área do petróleo está, como dito pelo senhor, submetido a uma mediação perversa 
para entrega a grandes grupos econômicos. Haveria alguma chance, mínima que 
fosse, de a presidente eleita negociar a volta do monopólio do petróleo, 
revertendo a Lei 9478/97 de FHC – já que se trata de uma reivindicação de vários 
movimentos sociais, bem como de estudiosos, que consideram que a substituição do 
modelo de concessão pelo de partilha da produção não é satisfatório, já que o 
setor privado continuará com presença maciça e determinante? 
<BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: Essa discussão tem dois papéis. Um de tentar 
de fato retomá-la, porque tecnicamente é possível se apropriar do excedente 
econômico do petróleo por vários meios: tributários, sobre a partilha, imposto 
de renda, há vários mecanismos. Mas o problema é que, embora possíveis 
tecnicamente essas várias apropriações, quem controla a reserva outorgada, quem 
controla a produção na partilha ou concessão, tem um poder econômico enorme na 
mão pra convencer o governo e o Congresso, como ficou claro nessa eleição e com 
o que já foi entregue. Isso está patente e claro! <BR>&nbsp;<BR>Por isso a 
defesa do monopólio, da necessidade de delimitar, certificar e conhecer as 
reservas, definir publicamente o debate do ritmo de produção, do que fazer e 
onde aplicar o excedente econômico, em que reformas sociais. E tal idéia pode se 
tornar hegemônica, pois também tenho percebido nos vários campos estudantis, de 
operários, profissionais liberais e até de empresários, que, quando compreendem 
o que está em jogo, refloresce a idéia da necessidade do controle político da 
sociedade sobre esse recurso. Não é questão que se delegue a qualquer governo 
eleito, pois o transcende. Portanto, esse é um discurso que acho que chama a 
atenção e permite mobilizar parte da sociedade. <BR>&nbsp;<BR>O outro ponto é a 
destinação, sem dúvidas. Todo mundo reconhece a necessidade da reforma da 
educação, da saúde, urbana, da mobilidade, da recuperação ambiental, do 
aprofundamento da ciência e tecnologia, de toda a infra-estrutura de circulação 
da produção nacional. É uma agenda que, conciliando os dois debates, pode 
mobilizar as forças. Mas não seria tarefa fácil. Até porque temos de reconhecer 
que qualquer governo tem um ano de graça, a não ser que aconteça um escândalo 
muito grande ou uma desgraça, o que é improvável. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio 
da Cidadania: Um governo Serra não seria, nesse sentido, ainda mais privatizante 
do que o governo Dilma poderá ser no que diz respeito ao nosso petróleo - 
afinal, ex-ministros do governo FHC criticam explicitamente a substituição do 
modelo de concessão pelo de partilha, sob o argumento de que o Estado não tem 
condições de levar adiante os investimentos astronômicos necessários ao Pré-Sal? 
<BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: Eu não afirmaria isso porque acho que ambos 
foram privatizantes. O que mudou foi o instrumento, a modalidade e a 
configuração da privatização. Entregar de 2,6 a 5,5 bilhões de barris de 
petróleo e uma hegemonia tecnológica do núcleo da Petrobrás a um grupo privado, 
sem nenhuma resistência, foi algo brutal contra o interesse público. Portanto, 
são vários formatos de privatização. <BR>&nbsp;<BR>O que deve ser discutido é 
como o excedente econômico e a riqueza nacional são colocados a serviço das 
elites, e como poderiam ser colocados a serviço das reformas fundamentais na 
sociedade, pra criar a autonomia de todos os brasileiros. <BR>&nbsp;<BR>Não vou 
ser repetitivo, mas é que se desgastou muito o debate da educação, saúde, nas 
eleições. "Sou o gerentinho que vai fazer tantas APAS, AMAS, Escolas Técnicas, 
não sei o que...". Cadê o conteúdo do debate? O SUS como conceito é excelente, 
mas está às traças. Basta dizer que poucos brasileiros que têm condições de 
evitá-lo se submetem aos seus serviços. Lamentável, mas é a tragédia do Brasil. 
A primeira delas, a educação. <BR>&nbsp;<BR>Nesse sentido, são dois formatos 
semelhantes da mesma prática. Com nuances diferentes, mas conteúdo semelhante, e 
conseqüências também semelhantes. Interessante que tanto os grupos financeiros 
como empresariais são os mesmos, o que denota claramente que esse é um governo a 
serviço dos interesses dos grandes, como seria o outro, um com um estilo mais 
populista, outro mais elitista, o que é a grande diferença entre eles. 
<BR>&nbsp;<BR>Evidentemente, para o grande empresariado e a burguesia, o governo 
sucessor do Lula é melhor, pois tem mais aceitação popular, além da confiança de 
tais setores, o que se cristalizou nas eleições. Eles devem estar muito felizes, 
pois fizeram a aposta certa. Tudo que vier de fora de tal expectativa será da 
mobilização popular, o que é uma tarefa gigante que se coloca diante daqueles 
que ainda têm uma concepção de sociedade diferente da que hoje é hegemônica - 
não no discurso, mas na prática real. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da 
Cidadania: Pensando no setor elétrico, citado pelo senhor, o governo Lula tinha 
entre seus objetivos iniciais uma reorientação do modelo do setor relativamente 
ao modelo privatista de FHC. Vários estudiosos entrevistados por este Correio 
confirmam sua avaliação de que esse objetivo foi alcançado de modo muitíssimo 
limitado, na medida em que continuam a prevalecer grandes consumidores e sua 
lógica de lucro, a descapitalização das estatais e a influência de interesses de 
poderosos setores eletro-intensivos sobre o governo. Como ficará, a seu ver, o 
setor elétrico sob um governo Dilma? Diante de suas conjecturas políticas, tudo 
indica que não será nada menos privatizante do que o seria um eventual governo 
Serra. <BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: Ela é a madrinha do que foi feito, eu 
dizia que ela criou o Bolsa-energia para o ‘mercado livre’, que valeu cerca de 
20 bilhões de reais de 2003 pra cá... Por que haveria de alterá-lo? Eles têm 
tido alguns dissabores porque periodicamente aparece, como neste ano, a ameaça 
de garantia do suprimento. Exatamente porque o mercado livre não contrata 
transparentemente sua demanda a futuro, vivendo de especular, do que o governo 
entendia como sobras e que não eram, e sim energia firme, que custava capital e 
recursos às estatais, vendida como se fosse energia de sobra, secundária, sem 
garantia e segurança. <BR>&nbsp;<BR>Por isso, de vez em quando aparece, como 
agora, a idéia que chegaram a cogitar de operar todas as usinas de gás, e fora 
da ordem de mérito. Portanto, o consumidor cativo que paga, em beneficio dos 
livres, especuladores. Assim, nesse último ano até se chegou a cogitar operar as 
usinas a diesel, pois os reservatórios chegaram próximo ao limite mínimo de 
confiança. Em caso de crescimento econômico no ano que vem similar ao deste ano, 
podemos chegar ao fim de 2011 com muito risco, se a hidrologia dos dois anos 
acabar sendo desfavorável. O que mostra a instabilidade, pois a única reforma 
feita foi a da necessidade de contratação de longo prazo, uma proposta nossa, 
mas como veio junto da idéia de que parte do mercado não precisa registrar 
contratos de longo prazo, já veio fraudada no seu objetivo por conta dessa não 
contratação. <BR>&nbsp;<BR>O restante do modelo ficou igual, com algumas pioras, 
como a não recuperação das estatais como empresas autônomas, sendo colocadas de 
muletas de parceria com empreiteiras e investidores privados na transmissão e 
geração; continuamos privatizando os potenciais hidráulicos; aliás, não fomos 
capazes de escolher os melhores nos últimos anos, tampouco de fazer os estudos 
sociais, ambientais, obter as licenças, negociar de maneira civilizada com as 
populações atingidas. Nada disso foi feito, repetimos o que era feito desde os 
governos militares. Como ela (Dilma) comandou tudo, talvez um pouco mais 
distante a coisa ande melhor, mas não há uma expectativa muito positiva de que 
isso aconteça... <BR>&nbsp;<BR>E, de novo, como grande parte dos movimentos 
sociais atingidos por essas ações todas nos últimos momentos se posicionaram a 
favor dela, na falta de outra alternativa, chegamos a uma desmobilização diante 
do que vem por aí. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: Dessa forma, a 
gestão do setor, um dos mais rentáveis de toda a economia nacional, é uma 
síntese do aparelhamento do Estado por interesses privados, além de uma pista de 
que tal modus operandi será mantido. <BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: O setor 
elétrico foi, sim, colocado a serviço dos interesses do grande capital. O BNDES 
financia tudo, os empresários privados comparecem de um lado com a muleta da 
estatal e do outro lado no mercado cativo para garantir a compra, além da 
pequena porção que vai para a especulação do ‘mercado livre’. <BR>&nbsp;<BR>De 
forma que criamos um quadro onde a idéia anterior do PT de que o excedente 
econômico possível no setor elétrico (a diferença entre custo de produção e o 
valor na esfera do mercado da circulação na eletricidade), e mesmo em outros, 
como nas telecomunicações, poderia ser usado como alavanca para resolver as 
assimetrias na área das carências sociais, inclusive na infra-estrutura 
energética para todos, foi para as calendas. Fizemos o Luz Para Todos, com muita 
propaganda, mas nem todos têm luz, e muitos a têm precariamente. Além de muitos 
escândalos. <BR>&nbsp;<BR>As estatais foram canibalizadas pelo mercado livre e 
colocadas a serviço dos novos investimentos desejados pelas empreiteiras; 
deixou-se de fazer a manutenção, o que levou a dois apagões notórios: o da linha 
de Itaipu e outro no Nordeste, mostrando a precariedade em que se encontra a 
manutenção. Depois de 20 anos operando com plena confiança, Itaipu caiu em 
descrédito, operando abaixo do nível de projeto, usando usinas a gás para 
segurar, por falta de manutenção e, claro, gestão do setor. Eis o quadro advindo 
da submissão da gestão das empresas aos contratos que as empreiteiras demandam. 
As estatais têm poucos recursos porque venderam grande parte de sua energia 
muito abaixo do custo. <BR>&nbsp;<BR>Ademais, grande parte de suas gestões foi 
loteada entre interesses de base partidária, de despachantes de interesses 
empresariais e políticos, cuja demanda e atenção não eram voltadas à plena 
manutenção, confiabilidade e operação no nível máximo. Os gestores estavam lá, 
mas voltados a novos projetos, investimentos e a tais demandas políticas. Tanto 
que o sistema Eletrobrás tem uma rentabilidade abaixo do custo de capital médio, 
enquanto os grupos privados têm uma rentabilidade enorme no mesmo sistema 
produtivo. Os consumidores cativos pagam as tarifas mais caras do mundo, ao 
passo que alguns grupos privados e comercializadores têm à sua disposição a 
energia mais barata do mundo. <BR>&nbsp;<BR>Eis a contradição criada nesses oito 
anos de governo. Se não acontecer nenhuma tragédia - que é muito improvável, mas 
não inteiramente descartável -, a festa vai continuar. 
<BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: E Belo Monte, uma das jóias da coroa 
do PAC, mas tão criticada e combatida por ambientalistas e movimentos sociais 
pelos impactos ambientas e sociais, vai entrar nessa festa também? 
<BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: Já está fazendo parte. Belo Monte é uma 
empresa concebida no governo militar e a essência do que se previu fazer naquele 
tempo foi executada agora. Assim como no rio Madeira, com as usinas Santo 
Antonio e Jirau, gestadas no governo FHC com a Furnas e a Odebrecht. Apenas 
partilharam uma das duas com outro grupo, pra não ficar tudo com a Odebrecht. 
<BR>&nbsp;<BR>De forma que, concretamente, há o processo de submissão desse 
espaço econômico, dos recursos naturais e da estrutura empresarial estatal, ao 
interesse da acumulação capitalista dos grupos privados. É a essência do que vem 
sendo feito. <BR>&nbsp;<BR>Tal lógica vale para o petróleo e por isso a 
afirmação de que o governo Lula é o que mais instrumentalizou, de maneira mais 
eficaz, com mais aceitação social, a submissão do espaço econômico dos recursos 
do Estado em favor da acumulação capitalista privada. <BR>&nbsp;<BR>É o que está 
em jogo. É nesse sentido que vai minha afirmação, e de muitos outros, de que o 
Lula consolidou o capitalismo e instrumentalizou o Estado no Brasil. 
<BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: Correm especulações de que serão 
tomadas medidas fiscais duras já nesse fim de mandato de Lula, para evitar 
desgaste de Dilma em início de gestão. O que pensa a respeito? 
<BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: Primeiro, é preciso ver que reformas são 
essas. Note que há reformas e reformas, e quem clama por elas quer reduzir 
direitos trabalhistas, sociais, previdenciários. É isso que está em jogo. São 
contra-reformas na verdade, o aprofundamento do modelo concentrador de 
privilégios e riquezas. É difícil avaliar, pois acho que o Congresso estará mais 
dócil, a não ser que a disputa pela partilha de cargos seja muito violenta. 
<BR>&nbsp;<BR>Mas o governo o tem ao seu lado hoje, embora nenhum partido tenha 
significado. Ou seja, está tudo pulverizado e todos buscam uma fatia. De maneira 
que, se a partilha for promovida no estilo anterior, vai ter uma maioria pra 
fazer qualquer coisa no começo do governo. Vai ser mais fácil a aprovação de 
projetos no novo governo, tanto que já se cogita concluir o modelo do Pré-Sal 
depois. Isso porque do Congresso atual sobra pouco; os derrotados têm 
expectativa relativamente baixa e os reeleitos estão olhando o futuro. Assim, no 
início do governo, vão tentar colocar as principais questões na mesa e 
resolvê-las na medida em que se consolidam as promessas de entrega da barganha. 
<BR>&nbsp;<BR>Não sei se me faço entender, mas é algo como "vamos fazer essa e 
essa reforma no começo e votá-las. À medida que vocês forem confirmando os 
votos, vamos confirmando o espaço no governo pra vocês". É um pouco jogo de gato 
e rato, porque ninguém mais confia em ninguém, uma desconfiança mútua 
generalizada. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: Vão fazer troca de 
reféns. <BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: É uma boa figura de imagem, é o que 
está em jogo neste processo político. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da 
Cidadania: Quanto a estas facilidades referidas do novo governo no Congresso, 
Chico de Oliveira, na entrevista ao Correio acima citada, afirmou também que as 
bancadas majoritárias, e agora aumentadas, da base governista nas duas casas 
farão o próximo governo mais conservador do que o de Lula. O que pensa a 
respeito de tal idéia? <BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: Creio que sim, porque 
será mais fácil trabalhar. E é preciso compreender o papel secundário que 
lamentavelmente o Congresso tem tido ultimamente, de mero carimbador. Grande 
parte da representação eleita se converte muito mais em despachante do interesse 
de grupos, muitas vezes com forte conteúdo econômico e até empresarial. Foram 
eleitos de forma genérica, com apoio de recursos e a profissionalização da 
campanha... <BR>&nbsp;<BR>Nesse sentido, entendo que o Executivo detém o poder 
real. O Congresso é um espaço de legitimação formal da democracia, mas os 
grandes debates nacionais estão em outros campos há muito tempo (no campo 
econômico), os quais o Congresso apenas legitima. Seus líderes buscam um 
tentáculo, algum espaço em órgão de governo, acima de tudo alguma estatal, onde 
poderão nomear o despachante de interesses e mediar e proteger o jogo econômico 
dos grupos que os apóiam. <BR>&nbsp;<BR>De maneira que novamente se manifestam 
as duas mãos. Acho que há uma figura de imagem muita apropriada do processo 
político do Brasil: o Second Life, ao qual já me referi, criado há algum tempo, 
em que o sujeito, além de cuidar de sua vida real, programa e vai comandando uma 
vida no computador. Eu temo que o típico agente político brasileiro tenha sua 
second life; uma pública, e a outra que fica nesse compromisso permanente, que 
não aparece, mas é com quem vive mais intensamente, o verdadeiro âmago do que 
ele faz: as articulações com o poder econômico. Ao mesmo tempo, tem a 
necessidade de aparecer diante de setores amplos da população como representante 
de algum interesse popular. Mas, na verdade, se expressa de um jeito ao público, 
enquanto, na articulação interna, inclusive em alianças interpartidárias na base 
do governo, busca avidamente nomear dirigentes de órgãos públicos, que por sua 
vez são colocados lá como mais que despachantes de interesse. Servem a essa 
correia de transmissão montada pra promover, de fato, a partilha daquele 
excedente econômico que cabe ao Estado e às empresas públicas gerirem. E as 
empresas de grande porte são muito visadas, porque direcionar contratos, 
organizar e legitimar esse processo é uma das tarefas. Tanto que grande parte da 
competência atribuída a dirigentes é a de ser o preposto político capaz de 
escapar dos órgãos de fiscalização e das áreas corporativas da empresa. 
<BR>&nbsp;<BR>Inclusive, e de certa forma, isso é uma tragédia que diminui um 
pouco o alcance da Lei Ficha Limpa. Porque se, de um lado, ela surgiu de um 
sentimento público contra a prática de ilícitos contra a economia popular e o 
patrimônio público, por outro lado, grande parte dos dirigentes políticos 
terceiriza e nomeia despachantes para praticar tais atos. Eles não os cometem 
mais diretamente, pois têm seus prepostos para tal. <BR>&nbsp;<BR>E 
ironicamente, em muitas corporações, já se criaram elites, que são como 
jogadores de futebol, cujo passe é comprado e vendido. São bem treinadas 
tecnicamente a serviço da nomeação política. Um exemplo notório foi com o 
ex-presidente Collor, cassado, capaz de ter um preposto, que nem conhecia de 
antigamente, que alugou o crachá de um técnico da Petrobrás para ser seu diretor 
da BR Distribuidora. É típico exemplo de como o alcance da Lei Ficha Limpa, 
efusivamente saudada, tem seu papel limitado, na medida em que a deterioração do 
papel político do Congresso, dos eleitos, faz com que estes não desempenhem 
papel direto, mas ‘apenas’ de influenciar diretamente, nomeando prepostos que 
nunca vão ser candidatos. Se forem pegos e condenados, o preposto lava as mãos. 
Esse é o processo político pós-mensalão. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da 
Cidadania: O que acontecerá e como reagirá um futuro governo Dilma, e os 
movimentos sociais, caso uma nova crise econômica bata às nossas portas? 
<BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: Só vai ter recurso pra minorá-la, a não ser 
que bata profundamente e as contradições aflorem; aí pode ser difícil. Mas já 
passamos pela experiência do Jânio, de estilo voluntarioso, personalista, que 
renunciou; passamos pelo governo Collor, que tentou promover a partilha entre 
diferentes grupos econômicos, mas foi ejetado do processo, retornando agora nas 
asas do socialismo moreno e do caudilho do ABC... É difícil prever o grau de 
coesão e coerência. Enquanto houver o que partilhar no plano institucional e com 
os movimentos sociais... <BR>&nbsp;<BR>A nova cartada que está na mão com o 
modelo do Pré-Sal é o poder autocrático e unilateral do presidente, que pode 
ouvir um conselho nomeado por ele e tomar a decisão de quanto vai produzir e 
como gerar as expectativas em torno disso. É um elefante na cartola da 
presidente eleita. Volto a olhar para o México, sendo importante lembrar que, no 
período de hegemonia da Pemex, o petróleo valia pouco - o excedente era pequeno, 
na diferença entre custo e preço, pois sua apropriação se dava em outras etapas, 
não na de produção, como agora. Portanto, acho que o grande coelho da cartola 
será sempre a partilha do Pré-Sal. No caso é trocadilho, já que o modelo de 
partilha permitirá... a partilha - não só entre governo e produtores, como 
também entre os vários produtores. É um recurso de que o governo dispõe pra 
manter a correia de transmissão andando. <BR>&nbsp;<BR>Havendo uma degradação 
muito forte da chamada moralidade e probidade, já notoriamente degradadas, tal 
percepção talvez possa chegar às bases se a crise for muito violenta, sem que se 
consiga manter a pequena mão esquerda fazendo a redistribuição e um pouco de 
carícia. Talvez, a mão do Lula seja percebida por sua história; o pouco que ele 
dava aos pequenos provocava enorme sentimento de reconhecimento e esperança, o 
que talvez não venha pela outra mão. <BR>&nbsp;<BR>É difícil fazer previsão do 
que vai acontecer numa crise. As conseqüências reais aqui dentro vão depender da 
capacidade da esquerda em se reorganizar em cima de uma nova compreensão do que 
está em jogo, numa clara plataforma de reformas possíveis no atual estágio de 
compreensão e mobilização política. Organizar, criar um movimento mais amplo, 
buscar espaço nos sindicatos e movimentos e recuperar seu espaço de atuação. 
<BR>&nbsp;<BR>Aí, qualquer crise econômica lá fora vai se refletir numa possível 
mudança da trajetória política do Brasil. Do contrário, é mais do mesmo: 
mexicanização e justicialismo. <BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: 
Pensando um pouco na nova equipe de governo, o que imagina da hipótese de a 
atual ocupante do cargo de diretora de Energia e Gás da Petrobrás (cargo no qual 
substituiu Ildo Sauer no segundo mandato de Lula), Graça Foster, ir para a Casa 
Civil? <BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: Entendo que a Casa Civil sob um José 
Dirceu era uma Casa Civil com conteúdo político, isto é, tinha um ator com 
densidade, que operava nas articulações, negociações, em detrimento da hegemonia 
do próprio presidente. Quem cumpriu à risca os ditames de ser operador em campo, 
de segurar a máquina estatal, dominá-la, quem negociava com grau de gentileza 
maior conforme a nobreza do interlocutor nos estamentos da Casa Grande, e 
tratava com rudeza o povo da senzala, isto é, funcionários públicos, de 
estatais, era a Dilma. Criou um estilo que é a antítese do que dizem os manuais 
de gestão, mas foi operativamente, do ponto de vista político, muito 
instrumental ao Lula, que ficou preservado, tendo alguém que lhe era fiel e 
operava todos esses campos da maneira descrita, tanto que ele acabou premiando-a 
com a candidatura e apoio, carregando-a na eleição com seu prestígio. 
<BR>&nbsp;<BR>Para tal paradigma se repetir, talvez não seja impensável uma 
clone da ex-chefe da Casa Civil e atual presidente, no método e estilo, ocupando 
o espaço praticando os mesmos métodos. E seria alguém (Graça) ‘liberado’, de 
muito baixo conteúdo político, baixa densidade pessoal, sem história de 
liderança no partido, pois é um enxerto já da era da metamorfose petista plena, 
que chegou muito mais como operadora. Ter no seu entorno, para negociar as 
concessões aos demais partidos e grupos, alguém de mais densidade política 
talvez não seja a opção de quem quer manter a hegemonia, o comando a ferro e 
fogo. Melhor ter alguém que compartilhe sua personalidade, que execute a ferro e 
fogo o serviço necessário, para que a grande mediação seja feita pelo primeiro 
mandatário, que só intervém lá na frente, após mandar fazer as coisas. 
<BR>&nbsp;<BR>Foi assim que operou o Lula no pós-Zé Dirceu. Ele estava confinado 
ao núcleo duro do partido, pois até 2005 quem mandava no governo era o núcleo 
duro do PT. Três ministros e um presidente que pensavam quase igual: o da Casa 
civil, o das Comunicações, o da Fazenda e o da Secretaria Geral de governo. Os 
quatro ministros originários da articulação histórica do partido chefiavam o 
governo, formando quase uma junta. Mas ela foi degolada e o príncipe emergiu 
sozinho. Passou a usar subalternos para domar a classe política em seu entorno e 
promover a partilha, o que tornou Dilma conhecida como gerente eficaz, na medida 
em que executava à risca os acordos, independentemente dos princípios em 
discussão. Impunha-os e salvaguardava a figura do presidente. <BR>&nbsp;<BR>Esse 
é o modelo que está posto. Agora, vamos ver o superpríncipe – afinal, não há 
"rei morto, rei posto", há um muito ‘vivo’ que vai sobreviver - e depois também 
os comportamentos. Criador e criatura sempre têm conflitos. 
<BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: Acredita que, conforme dita o padrão 
histórico, Dilma poderá se voltar contra Lula? Ou ela veio com a serventia de 
possibilitar a volta de Lula em 2014? <BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: Depende 
da conjuntura. A natureza intrínseca do processo levaria a uma possibilidade de 
afirmação definitiva de que Lula tem a última instância, o poder máximo. Só que 
exercê-lo às vezes exige uma conjuntura política, articulação, e de vez em 
quando há erros de avaliação. <BR>&nbsp;<BR>A tendência natural seria essa. Mas 
ninguém aceita de bom grado ser um preposto ocupando o posto máximo. É 
estratégia de jogo de poder. É melhor ler Maquiavel pra explicar o que vem por 
aí, ele é capaz de explicar melhor que eu. <BR><STRONG>&nbsp;<BR>Correio da 
Cidadania: Lula, como os jornais noticiam, "sugeriu" a Dilma que mantenha 
Meirelles, Guido Mantega e o restante da sua equipe econômica em seus lugares. 
Dilma vai acatar as sugestões de Lula? No geral, o que o senhor espera da 
montagem do novo staff? Haverá um arco de líderes e ministros dos mais variados 
matizes, como fez Lula? <BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: Acho natural que sim. 
Aquilo que deu certo tem tudo pra ser mantido - a grande mediação. Assim como as 
questões do comando do governo, e de toque pessoal, de hegemonia interna, ou do 
comando da Casa Civil com alguém que seja um fiel executor de tarefas, mais do 
que um articulador de grande porte. <BR>&nbsp;<BR>No restante, o governo tem de 
afirmar que ele vem para ser a continuidade do que já está aí. E, portanto, 
todos os compromissos com taxa de câmbio, juros altos, toda a lógica que 
prosperou e fez o que fez prosseguirá, de modo que não há muito a esperar com 
relação à mudança. Pode até trocar o nome do ator, mas o papel a ser exercido é 
o mesmo. <BR>&nbsp;<BR>A partilha está aí na configuração de toda a equipe, 
tendo de ser um pouco ampliada, uma vez que o equilíbrio eleitoral é um pouco 
maior; são quase equivalentes PT, PMDB, PSB e os outros que estão lá, o que 
aumenta o poder de mediação do príncipe, ou da princesa, que em última instância 
é quem poderá arbitrar o dote que caberá a cada um. <BR>&nbsp;<BR>Trata-se 
disso, partilha dos dotes. Este é o socialismo! Não o que criamos desde os anos 
80, na fundação do PT. Trinta anos depois, vemos o socialismo: a socialização 
dos espaços do governo entre os grupos políticos, que por sua vez estão lá 
subservientes a interesses em geral empresariais, do capital, não ao que diz o 
discurso, voltado aos movimentos sociais. A eles, as migalhas. 
<BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: Diante do quadro geral aqui traçado, 
qual a sua opinião quanto ao apoio que a candidata petista acabou por angariar 
junto à esquerda e aos movimentos sociais - estes mesmos que partilham as 
migalhas! -, especialmente no segundo turno? Acredita que fará algum jus a este 
apoio? <BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: Vendo que ambos, PT e PSDB, são muito 
parecidos, e com a imagem histórica do PSDB claramente vinculada ao 
neoliberalismo, apesar da trajetória de Serra - digamos que ele era a esquerda 
da direita, enquanto a Dilma a direita da esquerda -, havia pouca clareza para a 
esquerda e os movimentos sociais. <BR>&nbsp;<BR>À medida que o Serra assumiu uma 
agenda conservadora de direita, não deixou espaço aos movimentos sociais que se 
vêem como esquerda, a não ser se vincular à mão esquerda do Lula, deixando de 
olhar a mão direita, que também estava lá. Agarraram-se à mão a esquerda do 
Lula, sem se perguntarem o que a mão direita, a hegemônica, fará depois. 
<BR>&nbsp;<BR>Portanto, creio que no tabuleiro político faltou um pouco de 
percepção do xadrez, dado que propostas e práticas são muito parecidas. Aqueles 
que foram para a candidatura do PSOL ou ambiental no primeiro turno, ou anularam 
ou se dividiram no segundo; um pouco mais para o Serra, mas não o suficiente 
para consolidar a vitória eleitoral, mesmo com pouco mais de 40% dos votos do 
eleitorado. Grande parte dos movimentos optou por tapar as narinas e votar na 
candidata herdeira de uma história de esperança, especialmente porque o discurso 
exageradamente conservador do candidato tucano assustou. De certa forma, ele 
encurralou essas correntes entre a Dilma e o voto nulo. <BR>&nbsp;<BR>De 
qualquer maneira, evidencia-se um imenso vazio político. Falo assim apesar da 
agenda verde e nova no 1º. Turno, mas com baixo conteúdo social para responder 
aos anseios nacionais, e do discurso socialista, que não conseguiu se sustentar, 
em parte porque as regiões que mais se beneficiariam de tal discurso ainda estão 
prisioneiras do discurso da esperança e da mudança que vem da construção do PT. 
Uma construção que só agora, após uma longa onda de 20 anos, chega lá, onde 
talvez só chegue o discurso, porque nas práticas só temos tênues mudanças. 
<BR>&nbsp;<BR>O Bolsa Família, por mais necessário que fosse para extirpar a 
fome, que grassava, não é suficiente como processo político de criação de 
autonomia, participação efetiva, tornando os brasileiros mais iguais; ao 
contrário, aprofunda e cristaliza uma situação social e política inaceitável. 
Como instrumento de arrancada, é necessário. No entanto, cristalizá-lo cria uma 
situação política de dependência permanente do paternalismo, outra coisa 
invocada nessas eleições, de um lado pelo conservadorismo e de outro pelo 
populismo paternal e agora maternal. <BR>&nbsp;<BR>E veja como é contraditório: 
afirma-se uma mulher presidente como inovação, ao passo em que ela é apresentada 
como uma mãe, herdeira de um pai maior, criando não afirmação da independência, 
autonomia e igualdade entre mulheres, homens, regiões etc., mas aprofundando uma 
relação de dependência, herdeira de uma sociedade injusta, contra a qual foi 
criado um partido e muitos movimentos sociais. Eis o quadro. 
<BR>&nbsp;<BR><STRONG>Correio da Cidadania: Finalmente, ainda acredita em um 
projeto democrático-popular para o Brasil, nos moldes antes pregados, e 
abandonados, pelo PT, ou imagina que este seja um caminho que se tenha esgotado, 
devendo ser substituído por um outro projeto de nação? 
<BR></STRONG>&nbsp;<BR>Ildo Sauer: Eu acho que o PT tal como criado não existe 
mais. É um partido convencional que busca tirar o máximo possível da herança 
memorial de esperança, ainda retendo em suas prisões, seqüestrado, o imaginário 
de mudanças dos movimentos sociais, com um discurso longa e arduamente 
construído, ainda que grande parte dos precursores hoje esteja longe. Aqueles 
que se apoderaram deste patrimônio de mobilização social ainda vão querer tirar 
o máximo de proveito. Como seus escrúpulos já não eram muitos antes, certamente 
não terão os mínimos agora, depois da metamorfose, buscando arrancar o máximo 
dessa etapa, que os próprios vêem como os estertores de um projeto que começou 
cheio de sonhos, solidariedade, esperança, transformação, e virou uma disputa 
quase igual à da Noite dos Cristais, dentro e fora do partido. 
<BR>&nbsp;<BR>Temos de fazer uma autocrítica. Muitos de nós partilhamos tal 
projeto, em detrimento de um outro mais ortodoxo, de exame das reais 
contradições que habitavam a sociedade brasileira, conseguindo estruturar 
movimentos sociais capazes de compreender estas contradições e articular um 
poder real. Um poder em que os líderes que ajudaram nas formulações e se 
afirmaram no debate dentro das bases fossem os líderes do projeto, criando 
estruturas orgânicas fortes e indissolúveis, capazes de chegar ao poder e 
exercê-lo. <BR>&nbsp;<BR>Fizemos o contrário: delegamos a agentes simbólicos, 
com baixo grau de comprometimento, uma agenda real de esquerda. E que puderam, 
nessa estrutura tênue de correias de transmissão, de laços de cobrança, numa 
estrutura de partido com forte inserção social, fazer tudo que vimos. E a figura 
principal foi a cabeça do projeto, que tinha um grande legado histórico, 
simbólico. Como disse alguém um dia, "a qualquer chefe de esquerda lhe falta o 
dedo, perdido por um operário na fábrica". Isso é altamente simbólico. Para 
qualquer líder de esquerda ocupar um lugar hegemônico, vai lhe faltar o dedo 
perdido na labuta operária. Esse forte simbolismo não se traduziu em 
compromissos concretos, com a compreensão das contradições da sociedade. 
<BR>&nbsp;<BR>É muito simbólica a afirmação do presidente da República de que 
ele "chegou lá". Parece que é um Pelé, um jogador ou modelo que chega longe na 
carreira. Como se fosse possível ter 190 milhões de Pelés, 190 milhões de Lulas, 
190 milhões de Giseles Bündchen no Brasil, como se a estrutura social 
permitisse. <BR>&nbsp;<BR>Esse grau verbalizado no discurso mostra claramente a 
ausência de compromisso com a realidade das contradições dentro do âmago da 
sociedade brasileira, que é a estrutura social de produção e distribuição do 
produto social entre os grupos da população. Isso é que precisa ser 
rearticulado: aumentar as forças produtivas, produzir mais e garantir que a 
distribuição seja melhor. Mas não se leva a cabo tal tarefa com populismo, 
assistencialismo, paternalismo, maternalismo, pra onde tudo descambou. 
<BR>&nbsp;<BR>É a autocrítica que faço. Muitos intelectuais participaram do 
processo e, embora tendo uma compreensão maior, acabaram delegando poder. O 
símbolo maior foi o sindicalismo. Toda a base, que tinha um baixo entendimento 
do significado político do que estava em jogo, preferiu depois se servir do 
espaço de poder e dessa nova partilha com o sistema econômico dominante. E se 
subordinou a esse capitalismo, aqui no Brasil dependente, mas com um pouco mais 
de autonomia hoje em dia pela nova inserção internacional do país, criando até 
asas para um sub-imperialismo na África e América Latina. <BR>&nbsp;<BR>Foi o 
que fizemos, creio que deva ser essa a autocrítica. A estrutura partidária tênue 
que o PT representava, com facções e diversos grupos, permitiu que quem mais 
lançasse asas às alianças com a burguesia se tornasse a articulação hegemônica, 
terminando por desempenhar todo esse papel. É um aprendizado duro, mas vamos ver 
o que emerge daqui em diante. <BR>&nbsp;<BR>Meu último lampejo de esperança é 
que tudo que disse nesta entrevista não seja verdadeiro. Lá no fundo ainda sobra 
um pouquinho, um milionésimo, de esperança de que não seja. 
<HR>
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