[Laredviene] ENC: Entrevista analisa a vitória de Dilma e o Feminisno. Estadao 7 nov 10

Bia Cannabrava bia en cannabrava.com.br
Lun Nov 8 22:49:11 UYST 2010


 

 

Repassando entrevista da Sonia Alvarez.

 


Dilma e os anteparos do poder


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Ela ganhou. E em 1º de janeiro de 2011 vai protagonizar um momento
histórico. Aos 62 anos, Dilma Vana Rousseff deverá tomar posse como a
primeira presidente eleita do País, a bordo de 56 milhões de votos.

O feito foi celebrado pela ex-presidente chilena Michelle Bachelet, hoje à
frente da ONU-Mulheres, como "uma mudança cultural que acaba de começar".
Por mais seca que possa aparecer, a chanceler alemã Angela Merkel mandou
congratulações "do fundo do coração". Cristina Kirchner, em luto pela perda
do marido-parceiro no poder, não se furtou a saudar a colega brasileira:
"Bem-vinda ao clube das companheiras de gênero". Hugo Chávez, mais econômico
e direto, fez seu assédio político cortando a frase de Cristina ao meio.
"Bem-vinda ao clube", resumiu o venezuelano.

Em seu discurso de vitória, Dilma prometeu "honrar as mulheres" e pediu que
"pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem:
sim, a mulher pode!" Para a cientista política cubano-americana Sonia
Alvarez, autora de Engendrando Democracia no Brasil: Movimento Feminista e
Transição Política (Princeton University), não há dúvida de que "Dilma
pode". Mas não se espere que, pelo fato de ser mulher, governará de forma
diferente. "Ela o fará de acordo com a sua vontade política", calcula. Nesta
entrevista, Sonia despe os estereótipos do mundo da política, inclusive os
mais regressivos, como "Dilma, a mãe do PAC", "Lula, o filho do Brasil" e
"Getúlio, o pai do povo".

A entrevista é de Carolina Rossetti e publicada pelo jornal O Estado de S.
Paulo, 07-11-2010.

Eis a entrevista.

Há quem diga que a participação da mulher na política latino-americana tem
sido lenta e retardatária. No entanto, nesta década, tivemos presidentes
mulheres na Argentina, Chile, Costa Rica, e agora no Brasil. A situação está
finalmente se revertendo?

Primeiro, é preciso frisar que a participação das mulheres na política
formal pode ser limitada. Em outros espaços, como nos movimentos sociais,
nas organizações comunitárias e nos processos mais significativos de
transformação política - como o combate às ditaduras, a defesa dos direitos
humanos e as transições democráticas -, a presença delas tem tido muito
impacto, mesmo que indireto, sobre a política institucional. 

Segundo, o problema não é falta de interesse, vocação ou experiência das
mulheres. Ele é estrutural, histórico, e envolve a política formal que, no
mundo inteiro, continua dominada por homens das classes altas e pertencentes
aos grupos raciais dominantes. O que é "lenta e retardatária", então, é a
política masculinista e elitista latino-americana, bem como da maioria dos
países. Não as mulheres! A solução para a sub-representação das mulheres,
especialmente as pobres, negras e indígenas, tem que passar pela
reestruturação da política. As cotas eleitorais, mal-sucedidas, por mal
implementadas no Brasil, seriam uma medida na direção dessa reforma
necessária.

Dá para avaliar o peso simbólico de uma mulher presidente?

O simbolismo da eleição de Dilma serve, antes de mais nada, como exemplo
para as cidadãs brasileiras. Uma coisa que Dilma falou em seu discurso é bem
verdade: a importância de sua eleição reside na tentativa de desnaturalizar
a ausência de mulheres no poder, para que sua eleição deixe de ser uma
exceção. Mas, em vez de nos preocuparmos só com as presidentes, é importante
pensar nas mulheres que conseguiram se eleger vereadoras, deputadas,
senadoras, ou mulheres que estejam na liderança de partidos políticos e
sindicatos. É preciso construir uma Nação desde a base, onde tanto mulheres,
quanto homens sejam capazes de governar. O fato de só termos 17 mulheres
líderes mundiais já diz muito. A agenda não deveria ser como eleger mais
mulheres presidentes, mas como mudar a política para que isso não seja mais
um feito excepcional. Agora, não há razão pela qual devemos esperar de uma
mulher algo em particular na política, ou seja, que sejam mais ligadas às
questões sociais. Não é pelo fato da Dilma ser mulher que o Brasil vai ter
políticas mais progressistas em relação às mulheres. Isso dependerá da
vontade política dela e das relações que mantiver com os movimentos sociais,
especialmente, o movimento de mulheres.

Pela primeira vez no Brasil, a campanha presidencial contou com duas
mulheres entre os principais candidatos, ou seja, além de Dilma, Marina
Silva, do PV.

Marina teve papel expressivo nessa campanha. Provocou um impacto cultural e
simbólico interessante no sentido de tentar mudar a cultura política do
Brasil, quebrando estereótipos. E se declarou mulher negra, vinda de uma
trajetória de vida muito simples. Nesse sentido, ela e Dilma são bem
diferentes.

Michelle Bachelet foi uma indicação do ex-presidente chileno Ricardo Lagos,
Cristina Kirchner foi apontada pelo marido Néstor, e Dilma Rousseff, a
escolhida de Lula. A senhora concorda que, aos poucos, mulheres alcançam o
topo do poder, mas ainda são alavancadas ao primeiro escalão por figuras
masculinas de forte apelo popular?

Existe um padrão histórico comum, em que as mulheres chegam ao poder a
partir de uma relação de parentesco com o "homem político". São esposas,
filhas... Elas são "pescadas", por assim dizer. A façanha de Weslian Roriz
(esposa de Joaquim Roriz, que desistiu da reeleição ao governo do Distrito
Federal) só pode ser imaginada, e muito menos permitida, politicamente,
porque o senso comum ainda aceita a ideia de que a esposa seja naturalmente
submissa ao seu "dono". Agora, o caso de Dilma é totalmente diferente. É
mais parecido com o de Bachelet. Ou seja, não há uma ligação por casamento,
ou uma relação consanguínea, com estes homens, mas existe o apadrinhamento
político. Não quero tirar o mérito nem de Dilma, nem de Bachelet, que apesar
de apresentadas como "amiga do homem", tinham uma carreira política própria,
essencialmente administrativa. Mas é fato que a relação com o masculino
político de grande influência facilitou-lhes a chegada ao poder. Acredito
que o fato de Bachelet, apesar de ter 80% de aprovação no final de seu
governo, não ter conseguido fazer o sucessor, tem a ver com o ainda forte
viés machista na política eleitoral. O ponto mais importante é dizer que, se
Lula conseguiu ajudar Dilma ser eleita, isso significa que, certamente, um
esforço institucional partidário, igualmente intenso e convicto - como no
financiamento de suas campanhas - poderia levar muitas Dilmas, Michelles e
Cristinas ao poder.

Recentemente viúva, Cristina Kirchner terá de provar que consegue governar
sem o marido, tido como presidente ‘de fato’. Será um duro teste para ela?

O fato de Néstor ter sido visto como um presidente "de fato" já revela um
sério problema. Reproduz estereótipos sobre uma suposta incompetência
feminina para com as coisas políticas, e ainda reforça a nossa dependência.
Os Kirchner sempre pregaram que eram parceiros, na vida e na política. Mas
não há dúvida de que Néstor Kirchner continuou sendo o grande articulador
político por trás da presidente. Resta agora saber se Lula estabelecerá
outro tipo de papel no governo de Dilma.

Fala-se do feito inédito de Dilma, assim como se falou de Obama por ser o
primeiro negro a presidir os EUA. Esses ‘pioneirismos’ tendem a se eclipsar
ao longo do mandato?

Não acho que houve eclipse algum da identidade racial de Obama. Ele nunca
deixou de ser o "Presidente Negro", muito pelo contrário. As forças
conservadoras nos EUA não deixam de remarcar a sua raça e continuamente a
ressignificam, para o pior e de forma nem sempre sutil, para deslegitimá-lo.
Mas os movimentos que o apoiaram como alternativa ao elitismo do homem
branco, que ainda domina a política estadunidense, também não esqueceram de
cobrar dele suas promessas de justiça social, racial, de gênero. Nesse
sentido, tenho certeza de que as mulheres brasileiras, os pobres, os negros
e indígenas, os/as LGBT, e todos os historicamente excluídos também não vão
se esquecer de quem Dilma é, nem de onde veio. Vão lembrar quem e o quê a
presidente disse que veio representar.

Pesquisas de intenção de voto mostraram que Dilma tinha maior índice de
rejeição entre as mulheres. O que isso sugere?

É difícil saber o que esse dado nos diz. Penso que Dilma não teve muita
rejeição por ser mulher. A resistência a ela deve ter espelhado uma rejeição
ao partido. Mas é claro que o sexismo e a homofobia são nossos principais
inimigos, e se expressam também nas urnas. Por isso muitas mulheres não
acreditam que mulheres sejam capazes de governar. Mas o Brasil mostrou
nessas eleições ter superado esse obstáculo.

Mulheres no poder são associadas à imagens de ‘mãe da Nação’ ou ‘dama de
ferro’. Dilma, por exemplo, foi apresentada como ‘mãe do PAC’.

É comum que mulheres sejam representadas como a "grande mãe". É interessante
que Dilma seja a "mãe do PAC", e Lula, "o filho do Brasil", enquanto Getúlio
Vargas, era o "pai do povo". São estereótipos da política. Há uma tendência
de ver o papel político das mulheres como extensão de suas funções no lar. E
que elas levariam para a política características femininas que exercem em
casa, como o carinho pelos filhos, a administração de despesas, etc.
Assume-se que elas seriam mais gentis na política, mais honestas, cuidadosas
e preocupadas com o bem-estar social. Mas acho que se explorou a "imagem
maternal" de Dilma como forma de contestar sua fama de durona. Para
enfrentar o sexismo intrínseco na política, muitas precisam mesmo fazer cara
de duronas, mas pode ser mera performance. E, convenhamos, força não é
monopólio masculino. Ao contrário, força e garra é o que todas as mulheres,
especialmente negras, pobres, marginalizadas, precisam ter todos os dias
para enfrentar a vida.

Dilma, além de mãe, é duas vezes divorciada. Ou seja, contesta o modelo
tradicional da família cristã. Pode ser um complicador para ela?

A moral cristã, conservadora, patriarcal, esteve muito presente nessa
eleição, de forma preocupante para o futuro da democracia. O Estado laico é
fundamental para o exercício da cidadania democrática. E o avanço da agenda
moral de valores cristãos na política, por parte de evangélicos, mas também
por parte de católicos - vide o Papa Bento XVI e suas instruções aos bispos
brasileiros sobre como orientar o voto dos fiéis - parece até reprise das
"Marchas da Família com Deus pela Liberdade" que a direita organizou contra
o presidente João Goulart em 1964, e que serviram de modelo para a
manipulação dos papéis de gênero por todos os governos militares da região,
nos anos 70 e 80. Nessa campanha, o debate sobre aborto foi preponderante no
segundo turno e o confronto moral tornou-se central. A maneira como usaram
argumentos religiosos para tentar deslegitimar Dilma não foi bom sinal para
o futuro da política brasileira. Ficou evidente que os partidos precisam
trabalhar seriamente essas questões ditas "morais", e se engajarem num
trabalho político sobre esses assuntos, evitando as manipulações.

Aproveitando a nossa conversa, que rumos tomará o feminismo neste século
XXI?

Não existe uma consciência única ou mesmo uma palavra-chave que aponte a
demanda mais significativa dos movimentos feministas hoje. O que existe são
mulheres lutando por seus direitos - muitas nem se dizem feministas - nos
mais diversos espaços da sociedade. Ainda encontramos as plataformas
históricas, mas a luta das mulheres não se restringe ao lobby do aborto ou
do combate à violência doméstica. E isso muitas vezes não se entende. Sempre
nos preocupamos com uma visão de mundo ampla, que diz respeito aos homens
também. Um mundo mais humano, mais igualitário, menos racista, com mais
justiça social e mais respeito aos direitos humanos. 


 

 


 

	

 




-- 
EXPRESSÃO FEMINISTA
Partido dos Trabalhadores

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